segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Por Causa da Brincadeira



Então Suposto, minha afilhada fez 8 anos. O que quer dizer que antes disso fui atrás do presente dela. E é sempre um mistério presentear crianças. Mais do que crescer de um ano (mês, dia) pro outro, elas mudam de gosto. Não dá pra ir no aniversário de 7 anos do Pedrinho e pensar Ah, charutos, claro, o Pedrinho aprecia charutos; ou na festinha de 9 anos da Bruninha e dizer que CDs de jazz são sempre certeiros. Num ano Backyardigans, no outro, Monstros S/A, e eis que já existem Monster Highs e, enquanto isso, vai-se do karatê pro balé pra bicicleta pra astronomia como quem tira um tatu do nariz. Gostos estáveis são pra adultos preguiçosos.

Mas não está aí o maior mistério de presentear os pequenos.

Rapaz, caminhando por lojas de brinquedos, me dei conta de uma coisa que já estava lá desde a minha infância, desde a infância dos meus pais e árvore genealógica afora. A epifania – coisa linda ter epifania nas Americanas, enquanto o autofalante grita Alô, cliente, chocolates em promoção no piso 1, Tintura para cabelo leve 3 pague 2, caixa livre no 2º andar, aproveite, mas eu tive –, e tive a epifania ao ver a Lava Lava Homeplay e a Lava-roupas com Som Disney:

“Dê oportunidade e veja a imaginação das garotas fluírem, com ela as crianças entram em um mundo incrível cheio de magia e da fantasia, onde todas as coisas são possíveis. Agora as meninas não precisam mais pedir para a mamãe lavar as roupinhas das suas bonecas. Com a Lava Lava Homeplay até para lavar roupa é muito mais divertido. Ecologicamente correta, não desperdiça água e o motor gira de verdade. Disponível na cor rosa e lilás a Lava Lava funciona com pilhas, acompanha cabides e roupinhas. Diversão garantida para as meninas e suas amiguinhas!”

Tá lá no site da loja. E tá aqui a pergunta: onde a imaginação das garotas vai fluir? Junto com os resíduos na centrifugação? Ou vai fluir imaginando um Omo infantil? Flui a minha imaginação vendo nas lojas fogãozinho, liquidificadorzinho, ferrinho de passar roupinha, maquininha de costurinha e, ainda, kit ferramentas e minibancada de trabalho e carrinhozinho de compras e kit limpeza (vassourinha, pazinha e esfregão) e minipia (!), produtos que, não fossem de plástico e em cores fofuxinhas, talvez caracterizassem trabalho infantil.

Pois bem: já que isso é mais do que tendência, parece ser já um clássico da humanidade (pesquisas apontam que escavações no sul do Quênia localizaram miniclavas pigmentadas de rosinha e azulzinho com mais de 10.000 anos) e como esse negócio de estudar e escrever não dá grana pra ninguém, começo a pensar em investir no ramo e criar novíssimos e inovadores brinquedos pra fazer a imaginação das crianças fluir nesse universo mágico que é a vida adulta. Primeiras ideias:

SUBINDO E PASSANDO KIDS: agora a garotada vai viajar e se divertir como se fosse um verdadeiro cobrador de ônibus. O SUBINDO E PASSANDO vem com uma cadeirinha com cinto de segurança, balcãozinho pra contar e guardar o troco, uma incrível roleta que registra de verdade o número de passageiros e um sensacional cofre de segurança boca de lobo. Então, prontos pra viagem?

KIT MEU PRIMEIRO LEÃO: Que tal curtir muito calculando e declarando o seu imposto de renda? Divirta-se e aprenda, tentando obter as melhores restituições com este kit que vem com calculadora, formulários, contracheques, declaração de rendimentos e um leãozinho-triturador-de-papel para você inutilizar até 27% da mesada! E você pode compartilhar suas declaraçõezinhas online com seus amiguinhos, depois que elas ficarem retidas 12 meses em nosso site!

PORTARIA MUITO LOUCA: o espaço ideal para a criatividade e a diversão rolarem soltas: com minissistema de vigilância interna (6 opções de vídeo), garrafa-térmica, porteiro-eletrônico, radinho a pilha am/fm (funciona de verdade!) , a criançada pode brincar de porteiro e vigilante noturno. Faça turnos de até 12 horas observando o movimento, tirando cochilos, imaginando aventuras e deixando a mente viajar para evitar o tédio. Acompanha palavras cruzadas, jornalzinho e um cobertorzinho para o inverno.

CHUVEIRINHO ELÉTRICO: um superchuveirinho que faz do banho uma aventura. Ele queima a resistência de verdade quando você menos espera e esfria a água para valer. Vem com jogo de resistências e minicaixa-de-luz.

CAIXINHA DE CORREIO: a brincadeira de casinha está completa. Nas opções residencial e condomínio, as crianças vão brincar para valer abrindo e fechando a CAIXINHA DE CORREIO e recolhendo as mais incríveis correspondências.  Vem com folhetinhos de ofertas, imãzinho do entregador de gás e continhas de telefone, aluguel e luz com vencimento no dia primeiro de cada mês!

DEPILA FUN: as meninas vão poder brincar e se divertir depilando pernas, virilha, axilas e até o buço! E os meninos não ficam de fora! Paras os metrossexuaizinhos, o kit também depila ombros, peito e costas e tem uma exclusiva versão barba! Vem com pelos autocolantes de diferentes espessuras, tamanhos e cores, cerinha, pincinha, creminho pós-depilaçãozinha e bolinhas autocolantes para imitar os pelinhos encravados. Prontos para a diversão?!

HAPPY GREVE: junte seus amigos para soltar a imaginação e exigir seus direitos!  Organize suas próprias manifestações, faça piquetes e cruze os braços até obter o aumento. Este kit muito divertido vem com materiais para fazer faixas e cartazes, minimegafone que amplifica seus gritos de luta, tubinho de vinagre recarregável e camisetinha com frases de comando. Vem nas opções Bancários, Professores e Geral.

PET PASSEIO: bichinho de pelúcia é coisa do passado! Pet Passeio estimula a criatividade e a fantasia. Vem com um cãozinho de pelúcia, cocozinhos fedorentos, saquinho de lixo, pazinha e coleirinha para você passear por ai com o seu petzinho! Conheça também nosso Super Kit Pet Beautiful para brincar de Pet Shop!

COMPOSTAGEM JÚNIOR: salvar o mundo é a maior diversão! Compostagem Júnior vai reunir a turma toda para fazer substratos orgânicos ricos em nutrientes que adubam a imaginação e a criatividade.  Vem com casquinhas de frutas e detritos que parecem de verdade, minhoquinhas, micro-organismos de plástico (reciclado), bacia e um aromatizante para dar aquele cheirinho de composto orgânico! Vamos compostar?

MAROMBINHA POWER: tem que correr, tem que suar, tem que brincar! A garotada vai tonificar os músculos e a diversão com o conjunto de halteres de plástico, supino de borracha e uma pranchinha de abdominal. A diversão rola solta a cada série de exercícios! E para completar, MAROMBINHA POWER vem com um pote de suplementação alimentar com caramelos ou chocolates (todos zero kcal, claro).

MESÁRIO JÚNIOR: solte a imaginação vivendo as aventuras de um verdadeiro mesário em dia de eleição.  O kit vem com urninha eletrônica (que imprime boletim), mesinha e cadeirinha escolar, documentinhos para seus amigos votarem, formulário de justificativa e crachás de identificação. Convide seus amiguinhos para exercerem a cidadania e divirta-se.

KIT VAMOS ESTAR BRINCANDO: Solte a imaginação vendendo e comprando os mais incríveis produtos com seus amiguinhos. VAMOS ESTAR BRINCNDO vem com central de telemarketing e telefone de brinquedo que faz ligações de verdade. E as ligações caem quando você diz o primeiro nome-feio! Brinque de vendedor ou de cliente e desafie a turminha para ver quem bate primeiro as metas! Vem com manuais para venda de cartões, seguros, curso de inglês até time-sharing.

***


E aí, Suposto, que tal? São só umas ideias. Agora, só lamento que, na minha infância, eu não tenha brincado com um Kit Registre Suas Ideais e com um jogo de tabuleiro Desenvolvedor de Produtos Industriais Junior. Tivesse curitdo isso na aurora da minha infância, eu já estaria pronto pra começar meu império industrial. E não tava aqui de brincadeira.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Por Causa de Boaventura, Purgatório e Bom Ar

Bom dia, Suposto Leitor. Escrevo aqui porque não escrevi aqui o que talvez tivesse escrito aqui. Explico: o bom amigo Davi Boaventura, que desceu da Bahia pro RS pra cursar o mestrado em Escrita Criativa da PUCRS, não aguentou de saudades e foi passar umas tardes em Itapuã - que é perto da casa baiana dele. Sendo assim, o sujeito me convidou pra colaborar com o blogue Purgatório (que ele mantém com uma trupe de camaradas), enquanto ele se esforça pra esticar as pernas, pegar uma praia, dormir na rede, estes lugares-comuns. Pois bem, um texto que viria pra cá, foi pra lá, pro Purgatório. Clica aqui e lê.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Por Causa do Escritor Finlandês em Frankfurt



Rapidinho como quem rouba: Suposto Leitor, tu que é um carinha dedicado à leitura, suponho, já viu o discurso do Rufatto na abertura da Feira do Livro de Frankfurt desse ano? Melhor que ver, leu? Bom, tá aqui. E sabe que, no ultimo dia, o Paulo Lins falou que não é a lista de 70 autores enviados pelos Brasil que é racista, é o próprio Brasil que é racista? Declarações fortes por todos os lados. Fora do protocolo. Mas não é disso que eu quero falar. É do futuro.

Da Finlândia.

Sim, nesse momento (a Feira acabou ontem) tenho a impressão, o cutuque, de que um escritor finlandês sofre. Arrepia-se. Perde o sono. Não consegue escrever.

A Finlândia é o próximo país homenageado na maior feira do setor editorial do planeta. Vai mandar escritores, montar estande, fazer negócios e um discurso de abertura. Hemmetti, mitä aion sanoa tämän jälkeen vitun Rufatto puhe?*, está se perguntando o famoso escritor finlandês (se o Google Translator não me derrubou) nesse exato momento, pensando, na sua arrogância, que ele pode ser o eleito (ou condenado) a falar na abertura do evento e que, mais do que isso, não dá pra passar em branco, já não dá mais pra dizer Obrigado, É um honra, Vamos espalhar o finlandês pelo mundo, É uma grande oportunidade, Escrever em finlandês é um ato de resistência, Estamos dissolvendo fronteiras. Não, o escritor finlandês procura uma ferida pra tocar. Cutuca, cutuca e não dói. Ele quer que um escritor finlandês mais velho, que lutou contra a falta de problemas do passado, ele quer que esse histórico escritor brade ao fim do discurso retumbante:
- Se não tem problemas pra você, vá embora.

E eu me compadeço do pobre escritor finlandês e fico pensado no que ele dirá. Quem sabe, Suposto e escritor finlandês, a coisa possa ir por levantar uma bandeira nacionalista, A Nokia é nossa? Ou, então, pedir uma melhor, mais solidária e equânime distribuição de sol? Como assim, dias inteiros de sol e dias inteiros sem o sol? Como fazer uma literatura ambígua, densa, num clima tão maniqueísta? Ou exigir mais e melhores traumas de infância: num país seguro, com uma das melhores educações do mundo, renda percapta idem, transporte idem, saúde idem, um país que pode ser explicado com idem, onde está a angústia, onde está o medo, onde reside a dúvida pro escritor finlandês dialogar com o mundo? Ou mais melanina? É isso.

Taí, acho que taí, o escritor finlandês pode exigir mais melanina pro povo, como é que o finlandês pode se integrar na comunidade global, desbravar o sul, os trópicos, uma prainha na Polônia que seja, tendo que lembrar toda hora de reaplicar o bloqueador FPS 158? E, depois, quanto maior o FPS, mais melequenta é a coisa, não espalha direito nas costas, fica aquela marca ridícula, e a gente sempre se esquece de passar nos pés e na nuca e é impossível dormir, botar o sapato ou desbravar o mundo com o pé e a nunca ardendo. Claro que é. Taí. Acho que o escritor finlandês já tem um discurso. Já pode meter o dedo na ferida.

Só que o sistema de saúde lá é bom, e essa ferida já sara.

*God dammit, what i'm gonna say after this fucking Rufatto's speech? [nota: em inglês, porque o escritor finlandês não imagina como seja o português]

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Por Causa da Metáfora



Não sou um dos 10³ maiores admiradores do Bispo Edir Macedo e de seus gloriosos negócios. Mas dia desses (ou daqueles), li na Zero Hora uma notinha que me deixou de queixo caído*. Dizia o texto no periódico que um casal paranaense havia entrado na justiça contra a Igreja Universal, exigindo indenização. E depois de entrar na justiça, o par romântico saiu de lá com uma sentença a seu favor. A firma do seu Edir terá que pagar aos dois, sim, senhor. O motivo?

Aí que os butiá me caíram do bolso**.

O duo havia procurado a Igreja & Cia LTDA porque estavam endividados e, pelos vistos, acreditavam que só um milagre, nem a Sena, pagaria suas contas. Pues bem, nas instalações do senhor Edir Macedo, ouviram ou leram (o jornal não esclarece) que quanto mais você der a Jesus, mais você recebe de volta. Eu ouviria isso e ia pensar nos meus carnês. Mas o que os anjinhos ingênuos da Igreja Universal decidiram fazer? Venderam tudo o que tinham e deram pra Igreja do Bispo.

E aí eu pensei: Mas o quê?
E depois pensei: E a metáfora, Suposto?

Vem cá***, por acaso, a dupla-dinâmica também cogitou sair dando esmolas por aí, porque quem dá aos pobres empresta a Deus? Ou será que, quando com pressa, eles procuram sempre o último lugar da fila, já que os últimos, bem, tu entendeu, Suposto.

Não vou sair em defesa da Edir Macedo’s Co., mas me preocupo com o fim da ironia e da metáfora****. Depois desse bem sucedido processo contra a Universal, me pergunto se eles vão ter que, daqui para frente, ter asteriscos nas suas mensagens. Ou, como quase tudo lá é dito e, convenientemente, não escrito, será que ele vão ter que ter, a cada mensagem de louvor ou promessa de milagre, uma mensagem corrida, tipo aquela que vem depois das propagandas de remédio: esteremedionãoéindicadoparagestantescriançaspacientescomsuspeitadedengueechinchilas? Algo, como:
- Recebam, irmãos (atenção: não estamos falando que somos da mesma família), a luz do senhor (luz meramente ilustrativa, não faz referência a fontes de energia, velas ou assemelhados).

E se as coisas forem por esse caminho, pelo amor de deus, onde vamos parar?*****Quando o sujeito disser, ao voltar do futebol, que massacraram o adversário, vão abrir um processo, afinal de contas, vá saber se isso não era na verdade uma confissão. Ou quando alguém disser, no trabalho, que uma determinada tarefa vai levar um século pra ser concluída, o desprevenido funcionário vai bailar****** por justa causa? Oras, alguém que leva 100 anos pra executar uma tarefa que levaria, vá lá, uma semana não pode permanecer nos quadros de nenhuma empresa. Ou ainda, o supracitado par romântico, depois de faturar a indenização, faz um jantar pra comemorar, o clima esquenta e, na hora do amor, ela diz pra ele:
- Vem, me mata, me mata.

E o sujeito, não tem dúvidas, saca o três oitão e manda bala sem sentido figurado.

Alguém dirá que eu estou exagerando. Mas o meu temor é de que não. De que, quando as pessoas começam a fazer ironias que terminam com “Só que ao contrário” ou “Só que não” e palavras começam a ser proibidas de dicionários por um dos seus tantos sentidos, a gente esteja muito perto de um mundo em que se tem que tomar cuidado com tudo o que se diz. Cuidado ao dizer Muito obrigado. Porque se tu disser isso ao mecânico, está dizendo Me sinto muito obrigado a retribuir-lhe esse favor numa outra ocasião, que é a origem da expressão. E daí  já viu, se tu disse, tá dito: vai ter que consertar o vazamento do fuca do cara.

Fato é que o casal ganhou o processo. E que, se alguém me disser Deus te dê em dobro, vou pedir uma certidão passada em cartório do Céu e assinado embaixo 'Deus', e com firma reconhecida para ter certeza de que vou receber em dobro.


* Atenção: isto é uma metáfora. Está tudo bem com o meu queixo, segue no mesmo lugar de sempre.
** Isso é uma figura de expressão, nunca levei butiás no bolso, nem imagino porque o faria.
*** Não, não precisa vir, é só um recurso de linguagem, pode ficar aí lendo.
**** Dessa vez não é uma metáfora não. Me preocupo com os politicamentecorretismos, com essa ideia de um mundo pão-pão, queijo-queijo, sem abstrações, ironia e humor que se vê latente por aí.
***** Não se preocupe, Suposto, não estou perdido; isso é uma pergunta retórica.
****** Eu quis dizer “ser demitido”, é uma figura de expressão aqui do Brasil.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Por Causa de 1 Centavo


Mas esse brasilzão é lindo e fagueiro e brasileiro e, vamos combinar, um capítulo dalguma ficção que alguém tá escrevendo por aí. Não é à toa que o José Simão diz que é o país da piada pronta. Que é isso?, o Suposto vai me perguntar, só porque voltou da Europa vai ficar todo narizinho de cheirar pum, metidinho, chamando a pátria mãe de terceiro mundo?

Não, Suposto. Segura aí o patriotismo. É que eu fui no supermercado hoje e me deu um estalo que já tinha me dado outras vezes. Minha humilde compra deu nove e cinquenta e sete, mas a moça do caixa, gentil e matematicamente, anunciou o preço: nove e cinqeenta e cinco. Promoção? Não, jeitinho. E aí vem o caráter ficcional da brasilidade:

Somos um país que aboliu as moedinhas de 1 centavo e nunca teve 2. Não é aquela conversa de que nós deixamos as moedinhas em casa, que aqui moeda não tem valor. Não, Suposto: é pra valer, já faz um tempo que o poder central disse Vamos parar com essa mixaria, país rico é país sem centavos. Sim. Ok. Parece que as moedas custavam mais do que valiam, é mole. 10 vezes mais. Mas tudo bem, tudo muito bonito, porém, contudo, todavia, entretanto, cortou-se o 1 centavo da fauna monetária brasileira, mas não dos preços do varejo tupiniquim. Vai no super agora, ou no shopping, onde tu quiser, meu amigo, e constata: do lado direito da vírgula, valores terminados em 1, 2, 3, 4, 6, 7, 8 e 9 centavo seguem desafiando a realidade.

– Deu dois e noventa e sete, doutor.

Dou três moedinhas de 1 real e o que recebo em troca? Talvez um Boa tarde, um Muito obrigado, um Volte sempre, um Etc. Minto. A criatividade brasileira é sem fim: no restaurante, lógico, como me esquecer, recebo balinhas de troco, que depois não serão aceitas pra pagar o cafezinho ou pra comprar dólares na casa de câmbio ou a passagem de ônibus, nem pra depositar na minha conta na Suíça. Brasil, o país da bala-moeda. Com perdão do chulismo, não poderia ser melhor: pega o troco e chupa, camarada. É, é ou não é? É.

Mas no Zaffari, essa catedral supermercadística gaúcha, pelo menos tu compra um pouquinho de consciência leve – e não precisa pesar no setor de hortifruti. Adquiriu aquele quilinho de costela minga com uns sete cacetinhos pro churrasco pelo montante de quatorze e quarenta e três e, não tenha dúvidas, a benevolente caixa vos perguntará, meu cândido irmão: Deseja doar (míseros, parece que ela diz com o olhar) dois centavos para o Hospital de Pronto Socorro ou para o Hospital da Criança com Diabetes (ou quer guardar no porquinho, seu avarento)? Alguma dúvida de que ninguém jamais negou-se a essa caridade instantânea? Ainda bem, né? Claro, pela ajuda. Mas também porque, diz aqui pra mim, e se eu olho com cara de cachorro triste pra caixa do super e digo Moça, desculpe, mas tou desempregado, meu filho tá doente e eu preciso desses dois centavos pra levar ele de ônibus pro hospital, oh, o que aconteceria? Uma sirene piscando na Casa da Moeda, uma máquina enferrujada, começando a soltar fumaça preta pra cuspir duas moedinhas de um, que seriam embaladas a jato e entregues por um motoboy pra mim, ao custo de duzentos e quarenta e nove reais e setenta e seis centavos? – valor para o qual ninguém teria troco?

Olha: imagino os complexos cálculos de lucros, demandas, entradas e saídas e noves fora que consomem meses de uma equipe pra determinar que a minha cervejinha custe dois e sessenta e nove e, não, deusulivre, não dois e setenta ou dois e sessenta e cinco. Mas, gente, alguém precisa avisar a turma das porcentagens e das matrizes e das trigonometrias que todos esses cálculos levam a um número inexistente na realidade. Claro, há os cartões e os cheques. Mas também, lembrem-se, não há. Por que não simplificar? Será isso uma sórdida ação das companhias de cartões pra que a gente se dê conta de que as compras feitas com plástico são sempre entre quatro e um centavos mais baratas? Será? Se bem que hoje a menina do Nacional abateu dois centavos da minha fatura, arredondou pra baixo. Então, não. Não precisamos boicotar a Visa. Então haverá um estatuto da OMC que manda que se cobre números quebrados, em prol da tradição do zero com noventa e nove e seu mais que estudado efeito psicológico. Por mim, o Brasil poderia proibir por lei valores que não fossem arredondados e pronto. Acho que a OTAN não nos invadiria, tampouco nossa soja sofreria retaliações. O mundo ia seguir o mesmo, e nós vamos seguir fazendo o mesmo que hoje: pagar dois e cinquenta ou dois e cinquenta e cinco. E o Zaffari que depois desconte dois centavos das minhas compras pra caridade ou mais, se ele quiser. Autorizo. Mas sem fingir que ele me deu a opção de ter meu troco de volta.