quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Por Causa da Palavraria, dos Livros, do Chope

Tem um texto novo meu lá no blog da gloriosa livraria Palavraria, Suposto. É um texto baseado em profundas investigações estatísticas e comportamentais. Ele começa assim:

Livro é caro no Brasil.

Peraí, guenta um pouquinho. Se acha que esse lugar comum aí em cima é o indício de um texto todo ele lugar comum, de novo reclamando do preço do livro, de novo dizendo que assim não dá, segura só mais um pouquinho, deixa eu terminar esse primeiro raciocínio. Assim ó: Livro é caro no Brasil, vírgula, tô começando a achar que isso é um mito.

Olha, talvez dê pra dizer, vá lá, que livro custe muito em língua portuguesa(...)

Se quiser continuar lendo, clica aqui e vai lá pra Palavraria.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Por Causa do Metrô

Como diria um amigo meu paulista, então: sexta da semana passada tava na Zero Hora, com direito a diagramação especial, fonte diferente e tudo, toda a empolgação com o anúncio do metrô, ucho, ucho, ucho, o metrô é gaúcho, é isso aí.

Pues na hora eu senti aquele cheirinho de Habibs. Ou seria de McDonalds. Pizza Hut?

Não, Suposto, eu não tava lendo a ZH numa praça de alimentação.

Falo é do efeito Habibs (ou McDonalds, ou Pizza Hut). Uma coisa assim por-do-sol do Guaíba, tem que ser de Porto Alegre pra saber o que é.

O quê, Suposto, tu é de Porto Alegre e não sabe do que se trata? Capaz?

Explicar-te-ei.

Tava lá no jornal aquela cronologia do sonho, mil oitocentos e guaraná de rolha, Londres, primeiro metrô do mundo; mil novecentos e preto e branco, Buenos Aires, primeiro metrô da América do Sul; mil novecentos e tevê a cores (mas de tubo), São Paulo, primeiro metrô do Brasil; e, tchararam, dois mil e dezessete, dois mil e futuro, o quê, o quê, ele, o metrô gaúcho.

É isso, essa sensação de Porto Alegre desembarcando no aeroporto do mundo, sendo recebida com Welcome, miss Porto Alegre, essa vibração, é disso que eu estou falando e sei bem direitinho no que vai dar. Lembram quando inaugurou o primeiro McDonalds gaúcho? Ou a primeira Pizza Hut, o Habibs? Eu lembro, e lembro também de fila. Podiam convidar o sujeito pra ir jantar no Il Gattopardo com tudo pago, que o vivente dizia que não, eu quero ir esperar vinte minutos numa fila pra comer dois hambúrgers-alface-queijo-molhoespecial-cebola-e-picles-num-pão-com-gergelim. Melhor: te dou passagem pra ir jantar hoje em Paris. Ná! Sem graça, eu quero pegar meu Audi A3 e curtir um engarrafamento pra pegar umas esfihas e uma Kaiser no Habibs. É sério, tinha engarrafamento ao redor da loja em Porto Alegre nos meses seguintes à inauguração do fastfood árabe.

Temos essa característica, fazer o quê? Não sei se é gratidão, ou a pra lá de famosa hospitalidade gaúcha, mas esses troços que são populares, do povo, no mundo todo chegam aqui e viram o má-xi-mo.

Vai ser diferente com o metrô?

Já tô até imaginando. Tudo vai começar com o primeiro trajeto do revolucionário meio de transporte. Um passeio inaugural, com o presidente de 2017 (Dilma? Lula? Sarney? Collor? Tiririca?) acompanhado do governador, prefeito, autoridades. Jornal do Almoço transmitido ao vivo de um vagão, depois começa o Sala de Redação lá dentro, uma festa só.

E no dia seguinte? Essa revolução que veio para desafogar o trânsito, tirar veículos das ruas, agilizar a vida dos portoalegrenses, vai mostrar a que veio. No dia da abertura ao público, o primeiro impacto do metrô em nossas vidas vai ser sentido: engarrafamento de 17 quilômetros ao redor da estação. Filas cuspindo gente. Faltam passagens nas bilheterias. Um sucesso. Ninguém quer perder esse momento. Melhor só se tivesse um drive-thru do Habibs pra pegar umas esfihas e comer no metrô. Ir pro trabalho? Que nada. Todo mundo de chapinha, camisa Lacoste e o melhor sorriso como se estivesse de férias em Londres, curtindo as maravilhas de passear de metrô. Mas com um plus a mais: correndo o risco de aparecer na Fernanda Zaffari, no Lerina e, se bobear, no Kazuka. Vai ser uma festa.

Vejo pessoas trocando seu apês no Moinhos de Vento por um JK na Assis Brasil (e botando mais alguns mil reais pra conseguir fechar o negócio) pra curtir o glamour de morar perto da estação do metrô. Vejo mais: Padre Chagas? Cidade Baixa? Que nada, camarada, todo mundo fazendo happyhour no Xis Plutão. Ou num trailler de cachorro quente (quer dizer, hotdog), num New York style, bem na saída da estação Cairu.

Em 2017 vai ser assim. Me cobrem, lá num vagão do metrô gaúcho, onde eu vou estar tirando uma foto pra botar no facebook enquanto ouço um trabalhador reclamar do trem sempre lotado pro trabalho.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Por Causa do Enviado do Seu iPhone

Acabou de chegar aqui mais um e-mail enviado de um iPad. Agora há pouco, outro me avisava que “este e-mail foi enviado com o meu Blackberry”, e atenção, “da Vivo”. Opa, Blackberry e da Vivo. Que interessante.

Olha, já faz um tempo que essas assinaturas me encucam (encucam é uma palavra que deve encucar quem lê), mas, bem, já faz um tempo que a vital informação de que eu recebi um e-mail enviado do iPhone de alguém em faz perguntar: e daí, por que, quem se importa?

Vamos lá.

Primeiro é que várias vezes eu pensei assim: já imaginou se essa mania viesse do tempo da carta? Essa missiva foi redigida e enviada através da minha escrivaninha feita sob medida pelo arquiteto Alexandre Madeira; da minha caneta Bic; das folhas de papel Chamequinho; e, por fim, mas não menos importante, dos Correios. Ou então se as mesmas empresas que sempre vêm nos rodapés dos e-mails resolvessem também participar das ligações. Terminava a ligação, mas a gente só conseguiria desligar depois de ouvir “está ligação foi feita de um Samsung da Claro”.

Olha, acho na verdade que seria muito bacana se isso acontecesse, porque daí ia ser mais um jeito dos donos desses equipamentos ganharem descontos e bônus das empresas que utilizam esse espaço publicitário. Porque eu imagino que seja assim, né, cada vez que tu me avisa que teu iPhone – e não tu – me enviou um e-mail, deve ganhar pontos pra um novo aparelho ou uma senha vip pra fila do lançamento do próximo i-Guma-coisa.

Se não for isso, qual o sentido de ter essa frasezita ao fim de cada mensagem? Claro, o Suposto Leitor vai comentar que muita gente nem deve reparar que manda e-mail com essa frase, o dia-a-dia é agitado, corrido, não dá tempo de se ligar nessas coisas.

Pois é, Suposto, mas não ter tempo de reparar nessa frase é complicado, significa que tu nem vê direito o que manda? Uma dica, então: hackers, que tal mexer nessas frases? No final do e-mail das pessoas começar a aparecer “Eu faço xixi na cama”, “Gosto de usar as calcinhas da minha mulher quando ela não tá” ou “Tudo o que você leu aí em cima é mentira, esqueça”? Que tal?

Mas os que reparam e os que não reparam nessa frase, e vocês, empresas que botam essa frase, o que importa se o e-mail foi mandado de um telefone ou de um computador? O que significa Este e-mail blábláblá...? Quer dizer que o enviante, consumidor da empresa X, pessoa moderna e atenta ao que há de mais avançado, típico cidadão multitarefa que não tem tempo a perder, não perdeu tempo e respondeu enquanto dirigia o e-mail que perguntava “Churras hoje”?

Ou quer dizer que o remetente, portador do aparelho tal, alguém sempre conectado com seus amigos, que não pode descuidar um só segundo das suas relações sociais, não descuidou do amigo e respondeu rsrsrsrsrsrsrsrs com toda agilidade que é preciso pra checar e-mails enquanto o filho conta como foi na escola?

Ou quer dizer assim: meu amigo, este e-mail foi enviado do meu celular, que tá aqui comigo, no meio dessa reunião, que tá um saco e eu não tava a fim de esperar ela terminar pra responder. Será isso?

Seja lá qual for a hipótese, sempre que receber essas mensagem, vou ficar preocupado com meus amigos. Ih, será que ele vai bater o carro? Ou traumatizar o filho? Ou perder o emprego? Ou bater o filho, perdendo o carro, traumatizando o emprego, porque na verdade ele deixou de fazer tudo isso só pra responder o meu e-mail?

Ixi, espero que, se tu estiver lendo isso no iPad, que seja, pelo menos, em casa.

Esse post foi enviado do meu Pentium IV.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Por Causa do Bocejo do Suposto Leitor

Suposto, amigo velho.

Não te abandonei, rapaz. É só que, entre outras coisas, tantas coisas, até me mudar pra Portugal eu me mudei nos últimos tempos. Eu sei que tu vai perguntar, Tá, mas não tem internet aí? Tem, tem sim, mas as coisas não são tão simples assim. Só que o seguinte, voltei.

Com dois textos fora daqui.

O primeiro é uma colaboração que eu fiz pro jornal literário Suplemento Pernambuco. E como o hiperlink não deixa mentir, é só clicar ali no nome do jornal pra ler o texto.

O segundo é a partida que eu apitei no Gauchão de Literatura desse ano. Procurando o link pra clicar? Tá aqui.

Bem, dois textos, agora vou tirar o pó desse espaço e prometo que em uns dias coloco coisa nova aqui. Estou escrevendo nesse momento. Tenha fé.

Abraço, Suposto.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Por Causa dos Clássicos

Suposto Leitor, desapareci. Sumi. Por causa dos clássicos, entre outros motivos. Explico: andei às voltas com um texto pro jornal Zero Hora sobre os 50 anos da morte do Hemingway. Além de escrever, não pude deixar de ler um pouco sobre o assunto.

Passado isso, que já faz uns 15 dias, me aparece mais uma: sou o juiz convidado pra hoje, 19 de julho, às 19h30, apitar uma partida do Sport Clube Literatura. É um evento organizado pela Lu Thomé, pro Studio Clio aqui de Porto Alegre, em que livros (ou autores) são colocados frente a frente, numa partida, num jogo. E dois juízes tem a missão de apitar o resultado.

Pois bem, eu e o Rodrigo Rosp fomos escalados pra apitar Machado de Assis x Tchekov. Um clássico. E, pra não ser intimidado pela experiência dos atletas, tive que me entregar à leitura de mais alguns clássicos.

Buenas, em breve volto. Mas pro Suposto não se achar abandonado, deixo o convite: aparece hoje no Studio Clio. E também deixo o texto que saiu na Zero Hora (e um vídeo sobre ele).

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UM CLÁSSICO DO SÉCULO 20

Uma das coisas que eu sei sobre Ernest Hemingway, além do fato de a data de hoje marcar 50 anos da morte dele, é que o vencedor do Prêmio Nobel de 1954 acreditava no seguinte: escrever com verdade. E a verdade é que o convite pra falar sobre a passagem desse 2 de julho acabou me pegando de susto, porque, sejamos sinceros, não sou especialista em Hemingway. Não li toda sua obra, não conheço toda sua vida.

E foi por isso que topei escrever aqui.

Porque, apesar de não ser um profundo conhecedor da bibliografia e da vida dele, de não saber quanto calçava, sua comida preferida ou se tinha um tique nervoso muito esquisito, percebi que, mesmo assim, eu tenho minhas relações, opiniões e até algumas ideias sobre esse escritor que se matou há cinco décadas com um tiro de espingarda. E, ao me dar conta disso, das minhas ideias sobre o assunto, comecei a achar que, de fato, Hemingway é dessas coisas que, das maneiras mais variadas, faz parte da minha vida. E da sua também. Aí me senti em condições de escrever não com verdades históricas, sem querer ficar listando aspectos biográficos, ou curiosidades do Google, como “Hemingway escrevia de pé”. Mas, ao contrário disso, com o tipo de verdade que o autor buscava em seus textos, uma verdade pessoal sobre o tema. Sobre Hemingway pra mim.

Um exemplo da presença dele é que eu poderia ficar horas falando só do simples tormento que esse cara significa pra quem é ou foi ou será aspirante a escritor. Já passou por uma oficina literária? Já se meteu a mostrar seus textos pra alguém? Com certeza então você ouviu falar da teoria do iceberg, da história submersa, dos contos e dos diálogos do Hemingway e tentou reproduzir, tentou absorver e, no final das contas, só tentou.

Frustrações à parte, se a importância do autor ficasse restrita a lições e exemplos literários, vamos combinar, sequer essas linhas aqui estariam sendo lidas por você. Assunto pequeno, talvez. Só que, me parece, o buraco é mais embaixo. Bem mais embaixo. Mesmo quem não escreve, mesmo quem não é chegado em livros, se for perguntado agora, na rua, se já ouviu falar de O Velho e o Mar, vai, no mínimo, olhar com cara de “isso não me é estranho”.

E não é mesmo. E também não é irrelevante.

Hemingway, acreditem ou não, até num país de analfabetos funcionais, arrisco a dizer, é pop. Guardadas as proporções, me parece um tanto Cervantes século 20. Assim como o pai do Quixote, o autor americano se transformou nessas figuras míticas, até pra quem não é um leitor aprofundado (ou inclusive pra quem não o conhece). Um nome que é sinônimo de escritor e o tipo de artista – também como Kafka ou Dante – que gera um vocabulário próprio e lendas muitas que giram ao redor de si e das suas criações. São escritores cujos personagens se tornam pessoas vivas pra muita gente e, eles mesmos, viram personagens do imaginário coletivo. Estou exagerando?

Acho que não.

Ernest Hemingway faz parte de um time de grandes autores que, de tão grandes, muitas vezes acabam se tornando vítima de uma espécie de injustiça: a de se exaltar mais as peculiaridades do homem que a obra. Não que ele não tenha dado motivos pra isso. De ser sparring com Miró em Paris a caçar leões na savana; da participação na I Guerra e na Guerra Civil Espanhola ao seu suicídio, Hemingway parecia estar escrevendo os próprios capítulos e reforça, nesse sentido, a comparação com Cervantes que foi escravo, que perdeu uma das mãos, que escreveu na prisão. O tipo de escritor que, produzindo ou não metaficção, se transforma em personagem. Torna-se latente nas nossas memórias.

Bate-papo com Luiz Araújol de ZH, sobre Hemingway e quetais


Continua achando exagero? Pois repara no seguinte.

Há duas semanas fui ao cinema. Era sábado à noite, em um shopping, e uma sala inteira, lotada do melhor exemplo do público pipoca, foi às gargalhadas na cena em que Gil (protagonista de Meia-noite em Paris, de Woody Allen) se encontra com Hemingway. Todos ali tinham lido Por Quem os Sinos Dobram ou Adeus às Armas? Admiram as narrativas curtas do autor? Estão cursando mestrado em literatura? Claro que não. Mas Hemingway, apesar do propalado analfabetismo funcional do Brasil e dos raros-livros-por-habitante lidos anualmente no país, era um símbolo comum pra todos os espectadores. Tinha significado (sabe-se lá qual ou quais) pra cada um na plateia. E acho que isso não é pouca coisa não.

Claro, não sou louco. Não estou querendo negar aqui que é mais provável que nove em cada dez pessoas, hoje em dia, conheça melhor a produção do Justin Bieber do que do Ernest Hemingway. Não duvido que seja assim. Mas dá sim uma alegriazinha pensar que um escritor dos bons pode ter todo esse significado, 50 anos depois da sua morte, sem ter Facebook. Ou Twitter. E que alguém ainda pode ser pop sem depender de um vídeo vazando na internet.

Mas também dá um pouco de medo. De que Hemingway possa ser só mais uma palavra esvaziada de sentido como tantas outras repetidas à exaustão nos dias atuais. Um autor muito conhecido, mas pouco lido. Uma citação fácil e bonita de se fazer. Uma curiosidade pra contar pros amigos. Por via das dúvidas, acredito que o mais importante nessa data, depois de assumir que não sou expert no assunto, seja ler mais um pouco do que ele escreveu. E é o que eu vou fazer.

(Texto publicado no Caderno de Cultura da Zero Hora, em 2/7/2011)


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Por Causa da Funerária – É o que Parece

Ouvia eu a rádio Guaíba, esperando alguma novidade sobre o Grêmio, quando entrou no ar o comercial da Funerária São Pedro – e isso não é uma ironia quanto a situação do meu time. Entrou mesmo uma propaganda de funerária, que é um troço bem esquisito, né? Quem quer ouvir falar de funerária? Quem está procurando esse serviço? Imagina: cara, que achado essa funerária, tava justo precisando de uma, vou agora mesmo conhecer.

Mas a Funerária São Pedro faz propaganda.

E o melhor: lá pelas tantas diz assim: Funerária São Pedro, nem parece funerária.

Ah, não?

E parece o quê? Aliás, e qual o problema de uma funerária parecer uma funerária? Com o que ela deveria se parecer?

Com Salão de Beleza?

Sim, os corpos tem que ser tratados, maquiados, então eles apostam nesse viés do serviço. A gente entra lá, os-que-já-foram estão todos sentadinhos em cadeiras, com hair stylist fazendo o cabelo, a maquiagem, as unhas. A gente ouve uns “me-ni-na, esse cabelo vai a-rra-sar no seu funeral, a peruada vai mo-rrer!”, também se escuta “nossa, essa maquiagem deu outra vida pra você”, tem bronzeamento artificial pra todo mundo parecer que morreu em Cancun, e, com aquele cheiro de xampu, cremes, só percebe que estava em uma funerária quem olha a nota fiscal na saída. Será isso?

Ou funerária que se parece com parque aquático?

Compra um ingresso pra você e seu ente-querido (ou pra a família toda curtir essa despedida), e aí entram no maior toboágua do mundo, sentados em um carrinho que já parece caixão. Muita água e sprays perfumados já preparam o corpo pro funeral, mas ninguém pensa nisso, o negócio é gritar, sentir frio na barriga (no caso do defunto no corpo todo) a cada looping e a família toda curtir a maior diversão. Não é demais? E depois pegar na saída aquela foto-flagra de todos (menos o-que-bateu-as-botas) gritando num decida de 90 graus pra jamais esquecer o momento.

Quem sabe funerária que se parece com loja de design?

Tudo branco, minimalista, pouquíssimos objetos, música chill out ao fundo. Somos recebidos com clericot ou água com hortelã, o piso é iluminado e aí você pede pra ver os arranjos de flores, e um cara magrinho, sem olhar pro seu rosto, joga a echarpe pra trás e diz “Flores? So last week, meu querido... aaaff...”. O catálogo de caixões tem modelos assinados por Philipe Starck, Irmãos Campana, com curvas, materiais alternativos. Uma senhora até comenta “Caixão, mas isso nem parece caixão!” O cara joga a echarpe pra trás de novo, revira os olhinhos pra cima e suspira, como quem diz “E isso parece funerária, fofa?”

Funerária que parece oficina mecânica?

Quem te recebe é um cara com a mão cheia de graxa, macacão aberto, palitinho de fósforo na boca. O radinho mandando aquele debate esportivo ao fundo. Enquanto se discute quatro-três-três ou três-cinco-dois no som ambiente, o sujeito, meio de lado, de canto de olho, analisa o corpo do finado de cima a baixo e manda ver o diagnóstico especialiazado:

- olha, tchê, o estrago aí foi grande... acho que o serviço vai demorar, tem que ver aí se tem peça... deve ter até pegado na rebimboca do sujeito... as junta... Serviço pra 15 dias...

- 15 dias, mas o funeral é amanhã!

- Amanhã? – o cara passa o paninho na testa suada, coça os pelos do peito – posso dar um jeito, vi que o senhor é gente fina, mas vai sair mais caro, né?

Que tu acha, Suposto Leitor? Eu, acho, ou melhor, fico pensando aqui com os botões do computador: imagina se vira moda e a padaria começa a parecer banco; a farmácia, clube de strip; o restaurante, estúdio de tatoo; a livraria, uma academia de ginástica; o supermercado, um cartório;

E, se essa receita de bolo que você está lendo, não parecesse uma receita de bolo?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Por Causa da Correção Monetária

Já que o negócio é ser politicamente corretíssimo[1], não vou perder o trem da história, vou entrar na moda. O Suposto Leitor deve estar aí se perguntando, Será que ele vai falar de bulling? Homoafetivos? Não, meu querido Suposto, não se afoba. É muito mais grave a bandeira que decidi levantar[2]. Trata-se da discriminação monetária. Calma, Suposto, calma, não é de bolsa família, classe C, D e linhas de pobreza, não.

É o seguinte: é um assunto gravíssimo, em que todos temos parte, pode acreditar.

Esses dias, olhava eu uma nota de dez reais e não pude acreditar no que vi. Não era o fato milagroso de ter uma cédula na minha mão que me espantava. Devia ser dia de pagamento e resolvi verificar se o que eu percebia na nota de dez também estava na de dois, de cinco, de cinqüenta (a de cem eu não tinha, mas botei no Google e achei). E sim, em todas elas, em toda a representação da riqueza nacional, estava escrito – e segue escrito:

Deus seja louvado.

Opa, peraí, pensei. Mas logo re-pensei e voltei pro Google, pesquisei imagens das novas cédulas brasileiras, na certeza de que esse equívoco do passado, por certo, tinha sido corrigido, ou melhor, talvez até fosse o motivo do novo desenho do papel-moeda canarinho.

Como diria um amigo meu que mora no lugar-comum: Ledo engano.[3]

O erro não foi corrigido.

Lá está: na mão do rico e do pobre, pagando o flanelinha e a camisa de seda, Suposto Leitor, uma confissão de preconceito: Deus seja louvado. Calma, calma, calma, igreja, defensores das minorias – sim Deus, é uma minoria, é só um –, nada, nada mesmo contra Ele[4], até a favor. Minha questão não é a presença Dele no meu dinheiro, até porque quem nunca disse graças a deus ao se deparar com uns pilas, que jogue a primeira pedra. A questão é a seguinte: por que SÓ ele ali do lado da cifra? Hein, Suposto? Não falei que a bandeira era pertinente[5]?

(Pausa pra um momento cívico: já que o negócio é ser politicamente correto, vou pegar a constituição que é um negócio bem político, e, com tanta lei, só pode estar correta. Pois ela diz assim:

É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na formada lei, a colaboração de interesse público;)

É aquela conversa do estado laico, que respeita a liberdade religiosa no melhor politicamente correto style, tão propalada na hora de dizer que somos um país mágico que respeitas as diferenças, vive em harmonia, patati, patatá.

Mas daí o sujeito, digamos, islâmico, vai comprar o seu kibezinho com martelinho de araque, saca o dinheiro da carteira e vê lá Deus seja louvado? E por que não Alah também? E os budistas? Por mais desapegados que sejam, vez ou outra os caras tem que pegar um troco pra, sei lá, comprar um incenso. Por que é que não podem louvar Buda, por exemplo, quando estiverem segurando seu sagrado dinheirinho? Agora me diga, se os irmãos rastafári também não tem o direito de louvar Jah, na hora em que derem aquele cinco pila pra comprar outra peça de louvor[6].

É grave isso, não?

Um dos objetos mais cultuados da nossa sociedade laica&tal não respeita a liberdade religiosa? Ah, não pode ser assim[7]. Proponho que comecemos a discutir o preconceito monetário, ou melhor que busquemos já igualdade Real. É muito simples. Olha a minha idéia: ali no dinheiro, onde diz Deus seja louvado, coloque-se novo texto: Alah, Aton, Brahman, Buda, Deus, Jah, Jeová, Khrishna, Nam, Olorum, Ré, Tupã, Zeus seja louvado, se acaso você quiser louvar alguém. E, se você for ateu (é seu direito), louvado seja você que ganhou seu dinheiro[8].

Esse é o nosso atual rico dinheirinho

Que pode seguir rico, mas justo (clica neles pra aumentar)

Creio que assim estaríamos promovendo uma sociedade mais justa, igualitária, menos propensa a acirramentos e mais aberta ao diálogo, livre de tensões, angústias, dúvidas, questionamentos, piadas, humor e todo e qualquer tipo de emoção desnecessária para o avanço sereno da humanidade[9]. Estou fazendo minha parte.



[1] A propósito, não deveríamos pensar uma nova designação, menos discriminatória, já que o fato de que há alguém correto pressupõe outro errado? É justo, em um mundo que busca igualdade, onde ninguém fala mal de ninguém, sugerir nas entrelinhas que eu sou correto e o outro não? Que tal politicamente justo? Não, politicamente-respeitador-das-diferenças-e-adequado-a-vida-em-sociedade? Ou politicamente-simpático-a-todas-as-diferenças-do-mundo-e-respeitador-das-liberdades-porque-sei-que-a-minha-começa-onde-termina-a-tua-desculpa-se-ofendi-alguém? Tá, de volta pro texto.

[2] Claro que todas as outras bandeiras são importantíssimas, longe de mim diminuir qualquer causa, mas vamos lá:

[3] Respeito todos os lugarcomunzenses, suas idiossincrasias, até porque todo ser humano é diferente um do outro, apesar de termos que nos tratar como iguais, até porque isso é um jeito de respeitar as diferenças e, bom, de volta pro texto:

[4] É correto usar maiúscula pra Ele e não pra ele, o Suposto Leitor, por exemplo? Não merecem todos maiúsculas ou todos minúsculas, ih...

[5] Assim como todas as outras que qualquer um quiser levantar porque todos temos o direito de levantar bandeiras.

[6] Peço perdões às demais religiões que não foram tomadas como exemplo no texto, todas têm o mesmo direito e são tão merecedoras quanto as já citadas, mas é que a retórica exige exemplos rápidos, não seria possível que eu citasse TODAS as crenças nesse espaço. Deixo uma lista do Wikipédia para o Suposto Leitor conhecer as religiões todas aqui.

[7] Mas se alguém acha que pode, tem todo o direito de achar e podemos debater democrática e pacificamente o tema porque, bem, de volta ao texto.

[8] A ordem dos nomes na nota obedece à ordem alfabética, que não é uma ordem melhor do que qualquer outra, mas pelo menos não é valorativa, ou depreciativa, até pensei em definir a ordem por sorteio, mas percebi que sorteios são um profundo desrespeito com os azarados.

[9] Mas você tem o direito de achar isso uma besteira, Suposto, mas não de dizer que acha uma besteira, porque daí eu posso te processar, assim como a União dos Bestas se, por acaso ela se sentir ofendida ao ser comparada com esse texto. Mas, nesse caso, eu teria que processar eles também por se sentirem ofendidos ao serem comparados com o que eu penso, o que não deixaria de ser uma ofensa a mim. Então eles, melhor parar.