segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Por Causa do Olho na TV, Ouvido no Rádio

Deu, chega.
O futebol brasileiro tá cada vez mais cheio de absurdos. Os horários das partidas são só um deles. Por exemplo, mesmo que com reservas, grenal às 19h30, é só pra tevê mostrar que ela é mesmo a dona da bola, do campinho e do apito.

Vem cá, isso até desagrega a família brasileira. Atrasa a pizza, atrapalha o domingão, elimina o cafezão no fim do dia, afasta o namoradão do inevitável encontro com o sogrão no final da tarde de domingo. Danem-se os rituais.

Mas o problema pra mim, uma das vítimas do payperview, que assisto muitos jogos em bar, é que tem um sujeito que não abre mão de pelo menos um ritual brasileiro. É o Doutor Olho-naTV-Ouvido-no-Rádio. Que, em tempos de tevê digital, tornou-se o Doutor Ouvido no Rádio, Olho na tevê.

Não, Suposto Leitor, não deu pau no meu processador de textos.

Deu pau é na lógica do torcedor de futebol.

Esse sujeito que cresceu assistindo ao jogo na tevê e escutando a narração do rádio, tentando talvez emular a sensação de estar no estádio, esse queridão ou não se deu conta de que as coisas mudaram - o que é impossível -, ou tem uma carteirinha de chato, ou (medo) encontrou sua forma de exercer poder. Sua chance de ser o dono do campinho.

Quer entender?

Imagino que algumas pessoas aqui, Suposto, não vivam o mundo do futebol com a mesma intensidade que eu. Então explico: há uns 20 anos, não era assim pra passar o jogo do teu time na televisão. Final de campeonato e olhe lá. No tempo em que não existia tevê a cabo, era hábito acompanhar o futebol pelo rádio, imaginando os lances narrados. Daí, quando teu time era eleito pra uma transmissão, talvez pelo costume de ouvir o narrador X, ou pelo hábito da velocidade da narração do rádio, ou por preguiça de pensar e querer que o comentarista do rádio te diga o que achar do jogo, muita gente ligava a tevê, mas tirava o volume, e ficava ouvindo no rádio. Era o famoso Olho na TV, ouvido no Radinho. Muita gente cresceu assim, ou vendo o pai fazer isso.

Só que surgiu a teve a cabo, depois a digital e esses avanços tecnológicos, acredite Suposto, não são tão avançados assim. O sinal deles chega uns dois segundos depois do sinal da teve aberta. Sério, tu, com aquela anteninha externa comemora, o gol antes do assinante da tevê digital. Mas o pior é o que o sinal do rádio chega muito, muito, muito antes do da tv digital.

Mais ou menos assim: no televisor vai bater o escanteio; no rádio o juiz já anulou o gol.

E, apesar disso, dessa total falta de sincronia entre as velhas e novas tecnologias de acompanhamento futebolístico, tem gente que continua inda a bares que transmitem futebol em sinal digital, com o seu rico radinho de pilha. Não entendo o sentido disso, se querem brincar de prever o futuro, ou se tem o cérebro tão lento que só processam o que ouviram quando vem quatro, cinco segundos depois acontecendo na TV.

Não sei.

Mas tudo bem se fizessem isso em casa.

Ou em público, no boteco, mas em silêncio.

Mas não. Não mesmo.

E aí o porquê de só uma grave deficiência mental proteger esses sujeitos com seus radinhos grudados aos ouvidos do rótulo de presidentes da Sociedade Mundial dos Malas. Os o Doutores Olho na TV Ouvido no Rádio não se contentam em escutar que foi gol antes de ver no monitor que ele aconteceu. Eles têm comemorar, gritar, só falta dizerem Eu vi primeiro e bater no peito.

E daí? Qual a vantagem de comemorar o gol sozinho, campeão? Vai ser torcedor do Íbis, então.

Que é uma ejaculação precoce quando isso acontece. O time lá nas preliminares, Rochemback pra Adilson, Adilson pra Gabriel, Gabriel recua pra zaga, o time toca a bola, GOOOOL, vibra o apressadinho. Ah, vai ser gol, pensamos nós, que só assistimos ao jogo. E até comemoramos quando ele acontece. Como quem vê uma reprise.

Mas o pior não é isso.

Essas Mães Dinah de mesa de bar, a partir do primeiro gol da partida, conseguem tirar toda a magia do jogo de futebol. O Sobrenatural de Almeida sai de campo nessa hora e leva os mistérios e as surpresas embora do estádio.

Explico: depois que o amigão gritou gol pela primeira vez com a bola no meio-de-campo, eu já sei que ele vai saber antes de mim, bem antes de mim se sair outro gol. Ou um pênalti. E ele vai gritar EU VI PRIMEIRO só pra demarcar seu território. Então, mesmo sem querer, acontece o seguinte: por exemplo, contra-ataque do teu time, a bola nos pés do atacante que nunca errou, por algum motivo terroristas chechenos seqüestraram o goleiro adversário, não tem ninguém debaixo das traves, o atacante avança sozinho, em direção à aera a ao gol vazios, mas Suposto, daí a gente repara que o Doutor Olho no TV Ouvido no Rádio ainda não vibrou com o gol. Bueno a única emoção que nos resta é tentar adivinhar de que jeito o gol será perdido. Isso se o nosso vidente (ou ouvinte) não gritar: não acredito que um ninja entrou em campo e defendeu!

E pior é que se o sujeito ainda faz isso é porque isso um costume mais ancestral do que palitar os dentes. Me resta pensar em soluções. Por enquanto tô entre assistir o jogo com algodão nos ouvidos ou contratar uns pagodeiros pra batucarem mais alto que o adivinhão. Alguma sugestão, Suposto.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Por Causa de 1 Drama

Não sou um grande leitor de poesia. Ou melhor, nem um suposto leitor de poesia eu acho que sou. Mas às vezes me caem na mão algumas coisas que, acho, são capazes de tocar até os mais despoetizados.

Isso serve pra falar do Contém 1 drama, publicado pela Não Editora. É um livretinho que já te pega pelos olhos, coisa bonita, coisa delicada, coisa que dá vontade de ler.

Mas é mais do que isso.

Contém 1 drama, na verdade, contém bonitas fotos tiradas pela Carol Bensimon e, acima de tudo, 2 poemas do Diego Grando.

Os poemas do Diego Grando.

O Diego já tinha lançado pela Não o conjunto de poemas Desencantado carrossel. Um livro do qual eu gosto muito, por causa do lirismo, da singeleza, da cotidianeidade, da ironia que o Diego colocou pra girar dentro de um trabalho bem cuidado da forma. Gostei do carrossel do Diego.

Mas aí o sujeito foi passar um tempo em Paris, fazer doutorado e voltou há pouquinho. O passaporte dele são os 2 poemas 25 Rua do Templo e Palavra Paris.

Caramba.

O Diego cresceu.

E não só na extensão dos textos. Cresceu demais o poeta, que já era bom poeta.

Olha, diz que a literatura é feita de solidão. A solidão do escritor, na hora de compor os textos. A solidão do leitor, no momento da leitura. Mas poucas vezes eu tinha sentido tanta solidão em uma experiência literária como experimentei ao ler 25 Rua do Templo e Palavra Paris.

Se não chegam a ser canções, são, no mínimo, pequenos refrões do autoexílio que o Diego viveu nesses últimos anos junto com a Carol na França. Refrões que ficam repetindo na nossa cabeça a sensação de estar só, de ver o mundo de fora, distanciado das relações familiares, do que já foi rotina, dos rituais coletivos. Diego faz 2 poemas sujos pelo deslocamento, pelo não pertencimento a comemorações e alegrias, sujos com o humor triste de quem troca de ano como quem troca de calçada, como ele diz em 25 Rua do Templo.

Os dois poemas conseguem passar essa estranha sensação de quem foi atrás do sonho e percebeu, nas lembranças, nas memórias, que deixou realidades pra trás. São versos cheios de sorrisos tímidos e lágrimas contidas, porque o olhar de poeta do Diego faz leituras inusitadas do seu cotidiano parisiense, das dores e das alegrias de quem está vivendo a vida de estrangeiro, de quem para na rua deserta e sombria/companheira desta hora que não escolhi/rua deserta não muito distante/dos grandes bulevares abarrotados de alegria espumante/flashes ao vivo para o mundo todo/e meia dúzia de carteiras roubadas/rua deserta no coração da cidade/que um dia chamaram/talvez sem previsão de ironia/Cidade Luz.

E isso é só um tantinho dessa mistura de amargura e sorriso, de matemática com poesia (A palavra Paris tem cinco letras/e dois milhões duzentos e quinze mil habitantes, assim começa Palavra Paris), essa mistura de solidões e olhares que o Diego nos oferece neste volume de Contém 1 drama.

Há muito mais nesses versos.

Tem ritmo, tem imagens, tem inusitadas comparações e tem a beleza que fica, ao final da leitura de Palavra Paris, a beleza de quem viveu a solidão, viveu a distância, viveu o estrangeirismo e, mesmo assim, na hora de se despedir dos vinte e dois metros quadrados dessa palavra Paris que durou dois anos na sua vida, nessa hora, nos deixa perceber saudade e vontade de ficar. Um sentimento difuso que talvez seja de todos nós numa hora dessas. Mas que só um poetaço como o Diego consegue dizer.

Contém 1 drama contém grande poesia, contém pulsação, contém a minha recomendação para o Suposto Leitor.

E talvez não contenha uma lágrima ou duas de quem ler.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Por Causa Dessa Pressa Toda


Num mesmo final de semana, há quinze dias, rolaram duas estreias nos cinemas, aqui em Porto Alegre: O garoto de Liverpool e A rede social. Eu e a Jajá acabamos indo assistir aos dois, um no sábado, outro no domingo.
O que foi bom.
Não só pelos filmes.
Mas também pela comparação que as 24 horas entre um filme e outro permitiram fazer. Não, Suposto, não vou comparar roteiros, atuações, direções. Tô falando é do simbolismo de esses dois filmes estrearem no mesmo momento.
Olha só:
Tem uma semelhança muito clara entre O garoto de Liverpool e A rede social, que é o fato de serem baseados na história dos primeiros passos, dos momentos pré-fama, de dois nomes ilustres, certo? De um lado, John Lennon, do outro, o Mark Zuckerberg.
E essa semelhança é que faz saltar aos olhos um troço bem típico dos nossos tempos. Quer saber? Tá com pressa? Calma, é bem disso que eu tô falando. Dessa nossa pressa.
Segura a ansiedade e acompanha: sábado, quando assisti a juventude do Lennon, estava sentado diante de uma história que levou uns cinqüenta anos pra chegar ao cinema. E, vem cá, a história da juventude do John Lennon, a formação de um dos maiores nomes da música de todos os tempos, não é pouca coisa. E ainda se trata de um enredo conflituoso, cheio de traumas, lances fantásticos, conflitos fortes. E isso, minha gente, levou décadas pra virar filme.
Aí, no domingo, quando estou saindo da sala onde vi A rede social, parei pra pensar, Peraí, mas esse sujeito é HOJE – e não quando a história se passou – mais novo que eu. E, não, não, Suposto, não é crise dos 30, nem inveja de quem faz um bilhão de dólares aos 25 anos. É o seguinte: quem é Mark Zuckerberg? Sim, o criador do Facebook, eu sei. Mas será que é isso que ele vai ser daqui 50 anos, ou ele pode ser mais? Ou ser esquecido? Está pronta a história do cara, já acabou, já vamos biografá-lo?
É disso que tô falando, isso que ver os dois filmes no mesmo final de semana me botou a pensar. Na ansiedade geral dos nossos tempos, na instantaneidade de tudo, e na tal da efemeridade de qualquer coisa hoje em dia. O Zuckerberg passou a ser um cara da história ontem (se pensarmos em termos de História, talvez ontem seja muito tempo até), há coisa de cinco anos ou menos, com a explosão do Facebook. E assim como ele, cada vez mais, se vê biografias das celebridades do momento. E não estou dizendo que a história do cara não seja interessante, que não deva ser feita. Só estou pensando no significado de fazer ela agora. Demonstra nossa incapacidade geral de fazer as coisas durarem nos tempos de hoje. Tudo é moda, tudo é onda, tudo é trend, tudo é passageiro. Deixar de fazer o filme do Facebook agora, talvez significasse deixar de fazer esse filme para sempre. Porque daqui a seis meses um outro jovem pode estar fazendo o novo bilhão da internet, com uma ideia que a gente não imagina o que seja, e tirando o Zuckerberg dos holofotes e capas da Time. Porque o Zuckerberg de hoje é o criador do Orkut de um tempo atrás, do Napster, de um pouco antes, é o Bill Gates, o Steave Jobs. Eles parecem vir ao mundo na mesma velocidade dos chineses. E podem deixar de ser os caras com a mesma rapidez.
E isso acontece em tudo. É a nova banda do momento. O novo filme do momento. O novo aplicativo do momento. O novo do momento. E a gente corre pra ter, pra baixar, pra fazer o filme e a biografia logo, porque vivemos em um planeta que virou uma imensa Casas Bahia: só hoje. Amanhã já era.
Muita coisa surge. Nenhuma fica.
O Facebook passa.
O Zucekrberg, idem.
O Google, vai saber.
As modas, todas.
Graças a deus, John Lennon é de outro tempo.
Levou 50 anos pra mostrar a juventude no cinema.
Mas ficou na história.
Está nela.
E não vai sair.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Por Causa do Livro Novo

Alô, Suposto Leitor. Voltei.
Pra convidar pro lançamento do meu livro novo, o Quero ser Reginaldo Pujol Filho. São 10 contos, cada um uma homanegam, uma brincadeira, uma livre-inspiração com um escritor referencial pra mim.

Pois bem, o lançamento será na quarta, 15/12, às 19h30 no Café Cinema do Instituto NT de Cinema (Marquês do Pombal, 1111 - Porto Alegre /RS), como não deixa mentir o convite aqui embaixo:

Bueno, e pra entender um pouquito mais como se dá esse livro novo, vai aqui uma pequena amostra. Um trechitio do conto Quero ser Miguel de Cervantes, que abre o livro. Lá vai:


QUERO SER MIGUEL DE CERVANTES (TRECHO)

E diz que existe aquela história do homem que queria ser Miguel de Cervantes. Vivia em algum canto deste Brasil que não posso precisar, não é sabido exatamente quando nasceu, mas contam
que se chamava Maiquel, Mayque, Maicon ou algo parecido e, portanto, não Miguel de Cervantes.

Sabe-se lá o que leva um homem do nosso tempo a querer ser um alguém, mesmo que um grande alguém, do chamado outrora. E, repare, não estamos falando de uma pessoa que se dizia Cervantes como tantos já se disseram Napoleões, Carlotas Joaquinas e outras personalidades de tempos passados. O homem que queria ser Miguel de Cervantes, se a frase não foi clara o suficiente, não se dizia, desejava ser Miguel de Cervantes.

Pois contam que, na falta de uma certidão de nascimento ou de uma carteira de identidade que lhe permitisse realizar esse desejo, certa vez, o sujeito, cabeça raspada imitando uma calva, bigodaços desenhados com régua e estilete, barba pontiaguda ampliando e triangulando o fim do rosto e vestindo bailarinas calças e uma bufante camisa, teria adentrado um cartório de Porto Alegre ouum juizado de Novo Hamburgo e, mal os presentes estranharam aquela figura, tiveram que dobrar seus espantos, pois que a figura bandeirava folhas ao ar e dizia Con quien hablo para cambiar mi nombre? Os dobrados espantos ainda se multiplicariam mais para escrivões, atendentes, funcionários que viram o protocolo de seus olhares ser quebrado pela turma que chegava em companhia do homem que queria ser Miguel de Cervantes: parece que era um mendigo, uma mulher da vida, o guardador de carros da frente do estabelecimento e um homem-estátua que se exibia em uma esquina próxima dali. (Continua)

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Então é isso. Está o senhor Suposto Leitor e todo mundo muito convidado para aparecer no lançamento. E também para conferir novidades e trechos do livro no @Quero_Ser.

Té mais.



quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Por Causa de Novidades

Hola, Suposto, que tal?
É por causa de novidades que tenho pouco ou nada aparecido por aqui.
Novidades quais?
Vamos lá.
Tá saindo - ou saiu já - nessa semana uma resenha que fiz para o livro Quantas madrugadas tem a noite, do Ondjaki, na Revista Aplauso. Pra saber exatamente o que eu penso desse lançamento da Leya, dá uma olhadinha na revista, mas fica já sabendo que é, sim, uma recomendação para suspostos leitores. Então, leia a revista e leia o livro.
Outra, é que ando às voltas com o fechamento do meu próximo livro. Andei escrevendo muito no livro e, portanto, fora daqui. Suposto, logo, logo trago mais novidades sobre o livro em si, lançamento e que tais que são coisas pra em breve.
E também, já que estamos aqui, andei sendo entrevistado pelo poeta português Luis Filipe Cristóvão para uma série de entrevistas do site PNET Literatura. Dá pra ler aqui.
Tenho escrito pouco aqui no Por Causa, mas tem um monte de coisas pra tu ler, Suposto.
Espero voltar mais vezes aqui.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Por Causa da FLIP 5 - FIM

Tá bem, coloquei aqui ontem o texto sobre o que fica da Flip, falando da gurizada lá de Parati.

Mas e a FLIP pra maiores, me perguntaria o Suposto Leitor?
Bom, foi isso aqui que eu disse:

Pois é, Suposto. Do que eu já via das Festa Literárias aqui em Parati, parece que essa edição pode vir a ser um ponto de reflexão, especialmente sobre programação. Lembro de sair da FLIP de 2007, com Amoz Oz, Coetzee, Nadine Gordimer, Mia Couto, falando de que tinha sido a FLIP das estrelas, ou a FLIP megaprodução. Ano passado, depois da programação com Sophie Calle e o ex-marido Grégoire Bouillier, Tezza e Bellatin e suas ficções biográficas, Catherine Millet e outros autores mais ou menos biográficos, a sensação era de que o evento tinha decidido mostrar essa discussão da fronteira entre o real e a ficção, essa linha tênue entre autor e narrador que tem marcado tantas obras contemporâneas.

E a de 2010?

Ainda não consegui ver uma cara nela. Parecia querer ser diferente, talvez ousada, chamando grandes atrações como Crumb e Lou Reed, em vez de prêmios Nobel. Homenageando Gilberto Freire, em vez João Cabral de Melo Neto. Pois é, mas acho que, se isso é ser ousada, prefiro outras ousadias que já vi em FLIPs, que são ousadas, mas são muito literárias. Ousadia de ser grande, como colocar o Paul Auster e o Chico Buarque juntos, sem ter medo de provocar o maior engarrafamento da história do mundo. Ou de trazer todas as estrelas da edição de 2007. Ou ainda ousar trazer gente realmente talentosa, mas longe, longe do estrelato literário. Digo assim: nesse ano de 2010 teve uma mesa que é tradicional, que é na quinta-feira, nos primeiros horários e reúne brasileiros contemporâneos. Teve coisa parecida em 2006, 2007 e acho que em outras edições também. Mas a diferença é que em 2010 não se arriscou trazer gente nova, nova, nova pra mesa. Ronaldo Correia de Brito ganhou o prêmio SP do ano passado, Beatriz Bracher já beliscou as principais premiações e Reinaldo Moraes foi um fenômeno literário nos anos 80. Tudo bem que talvez não sejam conhecidos do grande público ainda, mas já estão um passo adiante da turma que vi em 2006: André Laurentino lançando seu primeiro livro, Maria Valéria Rezende lançando o terceiro (ou segundo?), André Santanna lançando O paraíso é bem bacana, o próprio Reinaldo Moraes antes do Pornopopéia, assim, gente que eu não tinha ouvido, ou mal tinha ouvido falar. Autores como o Laurentino e a Maria Valéria, que descobri, corri pra comprar o livro, li e passei a dar de presente. Acho escolhas, garimpadas como essas, ou como trazer o Ondjaki quatro anos atrás, tão ou mais ousadas do que trazer Lou Reed.

Outra coisa que senti falta, foi da polifonia da Festa. Essa FLIP estava mais pra conto ou novela, com poucas vozes, do que pra um romance polifônico, digamos assim. Explico: dois idiomas foram privilegiados nesta edição: português e inglês. Houve também o espanhol de Wendy Guerra e Isabel Allende e talvez alguém possa querer forçar a barra e falar da iraniana Azar Nafisi e do israelense A.B. Yehoshua, mas eles vivem há anos nos EUA e acho que escrevem em inglês. Não teve argentinos, mexicanos, africanos - de língua portuguesa ou não -, chineses, franceses, italianos, alemães, tantas vozes por aí, acho que a Festa Literária foi menos internacional esse ano em Parati. Ou que o nosso narrador foi um tanto repetitivo.

Mas antes que achem que a cara dessa FLIP seja a minha amarrada, calma lá, moçada. É a FLIP.

E teve coisas boas, ótimas descobertas pra mim. Livros pra trazer pra casa.

William Boyd, por exemplo, o escocês que dividiu mesa com Pauline Melville, está na mala. Poderia estar trazendo o romance do qual ele leu um trecho, Tempestades comuns, ótimo trecho por sinal, uma cena angustiante a beira do Tamisa, muito bem narrada, mas o que está vindo é o volume de contos Fascinação. Porque o Boyd mostrou na mesa ser um pensador da literatura - ele é crítico e roteirista também - e lá pelas tantas lascou que tinha criado uma espécie de teoria do conto, dividindo o gênero em sete modelos (que podem se inter-relacionar). Falou brevemente sobre estes modelos, que podem ser conhecidos no site do autor, e me deixou curioso sobre como funciona na prática toda esta teoria. Ontem, na livraria da FLIP, folheei Fascinação e fui pro caixa. Parece ter coisa boa ali. Depois de ler, conto.

Houve a já citada mesa dos brasileiros. Boa discussão sobre literatura. Embora a mediadora tenha definido que ali estavam três estilos de romance, o do sertão (Ronaldo Correia de Brito), o intimista (Beatriz Bracher) e o urbano (Reinaldo Moraes), vi mais do que isso. Vi três jeitos de pensar o texto. O Ronaldo, nas suas falas, trouxe uma coisa paradoxal, uma racionalidade-apaixonada, um cara com quem dá vontade de conversar sobre o escrever, ele parece ter muito a dizer e a refletir, mais do que foi exigido dele na mesa. O Reinaldo talvez seja o extremo, embora tenha falado de forma e coisa e tal, pela leitura dele, pelo que já li dele, e pela fala dele, parece ser o típico contador de histórias. Desbocado? Universo junkie? Coloquial? Underground? Sim, tudo isso, mas daqueles que acreditam em primeiro contar e contar e contar a história pra ver onde vai dar. E a Beatriz Bracher, não sei se misturei o fato de estar lendo o segundo livro dela e observando profundas diferenças entre um livro e outro, mas talvez tenha somado isso à participação dela, e assim vejo uma investigadora, não a escritora do intimismo apontada pela mediadora, mas alguém investigando estilos, formas e histórias. Pois esses três soltos e com perguntas simples, mas sobre as suas obras, fizeram uma das mesas mais consistentes que vi, daquelas em que mais que conhecer os autores, vamos conhecendo também um pouco mais do que a gente pensa sobre a escrita e a leitura.

Também vale exaltar a mediação do João Paulo Cuenca, na mesa que reuniu Carola Saavedra e Wendy Guerra. Cuenca talvez devesse servir de exemplo pra outros mediadores da Festa. Foi na veia da obra das autoras, tinha os romances no colo, leu trechos sublinhados, fez intersecções inteligentes entre obras que aparentemente não se relacionavam e não caiu em clichês fáceis, como querer discutir a literatura feminina, só porque havia duas mulheres no palco. Ao contrário disso, propôs discussões sobre escolhas narrativas, sobre os significantes vários que encontrou em Paisagem com dromedário e Nunca fui primeira dama. Acredito que quem já tivesse lido os livros deva ter recebido boas chaves de leitura dessa discussão. Daí, não sei se é porque era domingo e já ia começar o Faustão, ou se porque o Cuenca resolveu falar de literatura e de literatura e não se permitiu discutir amenidades (nem quando a Wendy Guerra deu uma baita brecha comentando ter sido desde criança a Xuxa da TV cubana), não sei por qual motivo, muita gente saiu antes do fim da mesa. Talvez fosse dor nas costas, quatro dias sentado, vendo mesas, dói no ciático.

E, claro, houve a dupla participação do Robert Darnton, casada com o estande da Companhia Suzano de Celulose. Cometi a ingenuidade de vir assistir a essas mesas em busca de respostas, mas é óbvio que estou voltando com muito mais perguntas. Claro que dá esperança no futuro do livro de papel - sim, quero que ele continue - ver o Darnton falando da busca da coexistência do analógico e do digital. Ele comentou, inclusive, estar escrevendo um livro para se publicado nos dois modelos, com especificidades para a leitura linear (no papel) e outras para a leitura não linear (digital). Outro foco de esperança foi ter visto que o mesmo homem, o Makinson, editor da Penguin, na mesa com o Darnton falava em estar se preparando para um futuro digital, em livros com recursos de vídeo (queria falar mais sobre isso outra hora), mas esse mesmo sujeito e sua empresa estavam, com grande estardalhaço, lançando a parceria com a Cia das Letras para vender o quê? O quê? Livros, sim, senhor. E a Penguin não só está lançando operações no Brasil, como na China, na Coreia, na India e em outros mercados onde a alfabetização e o desenvolvimento ainda podem criar muitos leitores. É claro que se pode pensar que essa expansão tem o objetivo de compensar uma possível perda de mercado nos EUA pra plataformas digitais (embora tenha se falado em crescimento da venda de livros neste ano). Mas eu também tendo a pensar no seguinte: se o futuro é tão inevitável e iminentemente digital, estaria a Penguin fazendo toda essa expansão com livros de papel para lucrar com os últimos anos de um mercado agonizante? Resolveram gastar dinheiro? Ou ainda enxergam boas perspectivas para as vendas de livros? Tô falando: voltei com bem mais perguntas.

Ainda sobre a questão dos livros, acho que a organização das mesas refletiu um pouco do mercado editorial: esqueceram do autor. Nessas discussõe sobre direitos autorais, mercados, futuros e incertezas, além de editores, pensadores, diretores de biblioteca, não seria uma boa ter colocado um escritor de literatura? Pra gente voltar com ainda mais perguntas, questionando também o que esse movimento todo vai fazer com a linguagem? Com o modo como se conta histórias? E se lê? Perguntas, perguntas, perguntas, FLIP, Festa Literária Internacional das Perguntas também.

Quero só ainda comentar que aqui no ônibus, deixando Parati, vejo muitas pessoas lendo livros de autores que estavam no evento, livros de papel, provavelmente comprados durante a festa. A julgar por isso, a FLIP colocou mais uns cinco dias de vida nos cálculos de quem vive profetizando o fim dos livros.

Prós e contras pesados, acho que é isso que chamam de fazer um balanço do evento, não?

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Ah, sim, só mais uma coisinha: profissionais da tradução simultânea: mandem seus currículos para a organização da FLIP. Seria uma excelente surpresa, numa próxima edição, descobrir que essa área foi qualificada. Desde 2006, é a mesma turma, fazendo, às vezes, em vez de tradução, confusão simultânea das mesas.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Por Causa da FLIP 4

Pues, coisa louca, Suposto: a FLIP continua aqui. Tem mais dois textos que fiz pro site da revista Aplauso e que quero dividir contigo. São dois balanços do todo da festa e não vou ficar falando mais, porque os textos já dizem o que querem dizer. Aqui vai um e amanhã ponho o outro. E aí a Festa acaba aqui.
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O QUE FICA QUANDO A FLIP SE VAI?
Cabou-se a FLIP.

E acho que um dos papéis mais interessantes dela - e talvez menos falados - continua firme. Falo de uma imagem que vi, lá na quinta-feira, e que se repete ao longo do evento: uma molecada de Parati, pé no chão, bermuda suja da pelada no campinho, pendurada nos alambrados que dão acesso à Tenda dos Autores vendo aquele monte de gente entrar naquele circo que se monta há oito anos na cidade.

Dessa vez, olhei bem pra cara dessa gurizada, pros olhos arregalados, e pensei que essa turma talvez cresça com uma visão diferente da usual sobre o que é ser escritor. Em vez de pensar numa coisa solitária, em vez de ouvir que no Brasil escritor morre de fome, os paratianinhos talvez achem que escritor é superstar, é badalado, é coisa legal. Vem cá, ano a ano eles veem a cidade dobrar de populção, os pais ganharem uma grana a mais por causa dos escritores. Assim como eu, eles observam a geração espontânea de filas pra pegar autógrafos.

Sei que existe uma turma que critica as FLIPs, FLOPs, FLUPs pela espetacularização da literatura e do autor.

Mas vendo os guris de Parati tão curiosos por essa gente dos livros, começo a pensar que isso tem seu lado bom. Durante 5 dias, pra essa galerinha, escritores são tão famosos quanto o Kaká, quanto o último Big Brother, quanto a Ivete Sangalo, quanto o protagonista da novela das oito. Ei, as crianças de Parati talvez queiram agora ser jogador de futebol, modelo, astronauta, ator e, quem sabe, dois ou três, escritores. Por que não? Lembro que ano passado fui dar uma palestra pra uma turminha de um colégio público de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, e que a professora que me recebeu me falou que eu não tinha ideia da magia e da importância que tinha pra piazada eventos como aqueles, que isso sempre colocava um pouco mais o livro e o escritor na cabeça deles. Era uma feira do livro pequena, de bairro, agora imagina um troço como o que rola em Parati.

Isso somado com uma das partes mais bonitas da FLIP, que é a Flipinha, cara, é muito positivo. A Flipinha, pra quem não sabe, é uma baita programação infantil que rola no período da festa. Segundo me disseram, mais de 90% das escolas públicas de Parati participam das atividades. E ainda tem a decoração da Praça da Matriz, que além de reproduzir personagens literários em papel machê pra divertir a molecada, tem uma das minhas coisas preferidas na cidade: as árvores de livros. Muitas árvores com livros pendendo dos galhos. E a criançada vai lá, senta e lê mesmo. E, se não sabe ler, tem uma turma de instrutores que vem dar uma forcinha. Ah, e nesse ano ainda botaram uma bibliotequinha no meio da praça, aumentando a oferta de títulos pros pequenos. Torço pra que, nos doze meses que separam uma edição da FLIP da outra, esse trabalho de aproximação da criançada com livros tenha algum tipo de continuidade. Porque volto com uma impressão reafirmada: de que a cada edição podemos ter mais moleques sonhando ser Ronaldo. Mas Correia de Brito.