quarta-feira, 1 de junho de 2011

Por Causa da Funerária – É o que Parece

Ouvia eu a rádio Guaíba, esperando alguma novidade sobre o Grêmio, quando entrou no ar o comercial da Funerária São Pedro – e isso não é uma ironia quanto a situação do meu time. Entrou mesmo uma propaganda de funerária, que é um troço bem esquisito, né? Quem quer ouvir falar de funerária? Quem está procurando esse serviço? Imagina: cara, que achado essa funerária, tava justo precisando de uma, vou agora mesmo conhecer.

Mas a Funerária São Pedro faz propaganda.

E o melhor: lá pelas tantas diz assim: Funerária São Pedro, nem parece funerária.

Ah, não?

E parece o quê? Aliás, e qual o problema de uma funerária parecer uma funerária? Com o que ela deveria se parecer?

Com Salão de Beleza?

Sim, os corpos tem que ser tratados, maquiados, então eles apostam nesse viés do serviço. A gente entra lá, os-que-já-foram estão todos sentadinhos em cadeiras, com hair stylist fazendo o cabelo, a maquiagem, as unhas. A gente ouve uns “me-ni-na, esse cabelo vai a-rra-sar no seu funeral, a peruada vai mo-rrer!”, também se escuta “nossa, essa maquiagem deu outra vida pra você”, tem bronzeamento artificial pra todo mundo parecer que morreu em Cancun, e, com aquele cheiro de xampu, cremes, só percebe que estava em uma funerária quem olha a nota fiscal na saída. Será isso?

Ou funerária que se parece com parque aquático?

Compra um ingresso pra você e seu ente-querido (ou pra a família toda curtir essa despedida), e aí entram no maior toboágua do mundo, sentados em um carrinho que já parece caixão. Muita água e sprays perfumados já preparam o corpo pro funeral, mas ninguém pensa nisso, o negócio é gritar, sentir frio na barriga (no caso do defunto no corpo todo) a cada looping e a família toda curtir a maior diversão. Não é demais? E depois pegar na saída aquela foto-flagra de todos (menos o-que-bateu-as-botas) gritando num decida de 90 graus pra jamais esquecer o momento.

Quem sabe funerária que se parece com loja de design?

Tudo branco, minimalista, pouquíssimos objetos, música chill out ao fundo. Somos recebidos com clericot ou água com hortelã, o piso é iluminado e aí você pede pra ver os arranjos de flores, e um cara magrinho, sem olhar pro seu rosto, joga a echarpe pra trás e diz “Flores? So last week, meu querido... aaaff...”. O catálogo de caixões tem modelos assinados por Philipe Starck, Irmãos Campana, com curvas, materiais alternativos. Uma senhora até comenta “Caixão, mas isso nem parece caixão!” O cara joga a echarpe pra trás de novo, revira os olhinhos pra cima e suspira, como quem diz “E isso parece funerária, fofa?”

Funerária que parece oficina mecânica?

Quem te recebe é um cara com a mão cheia de graxa, macacão aberto, palitinho de fósforo na boca. O radinho mandando aquele debate esportivo ao fundo. Enquanto se discute quatro-três-três ou três-cinco-dois no som ambiente, o sujeito, meio de lado, de canto de olho, analisa o corpo do finado de cima a baixo e manda ver o diagnóstico especialiazado:

- olha, tchê, o estrago aí foi grande... acho que o serviço vai demorar, tem que ver aí se tem peça... deve ter até pegado na rebimboca do sujeito... as junta... Serviço pra 15 dias...

- 15 dias, mas o funeral é amanhã!

- Amanhã? – o cara passa o paninho na testa suada, coça os pelos do peito – posso dar um jeito, vi que o senhor é gente fina, mas vai sair mais caro, né?

Que tu acha, Suposto Leitor? Eu, acho, ou melhor, fico pensando aqui com os botões do computador: imagina se vira moda e a padaria começa a parecer banco; a farmácia, clube de strip; o restaurante, estúdio de tatoo; a livraria, uma academia de ginástica; o supermercado, um cartório;

E, se essa receita de bolo que você está lendo, não parecesse uma receita de bolo?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Por Causa da Correção Monetária

Já que o negócio é ser politicamente corretíssimo[1], não vou perder o trem da história, vou entrar na moda. O Suposto Leitor deve estar aí se perguntando, Será que ele vai falar de bulling? Homoafetivos? Não, meu querido Suposto, não se afoba. É muito mais grave a bandeira que decidi levantar[2]. Trata-se da discriminação monetária. Calma, Suposto, calma, não é de bolsa família, classe C, D e linhas de pobreza, não.

É o seguinte: é um assunto gravíssimo, em que todos temos parte, pode acreditar.

Esses dias, olhava eu uma nota de dez reais e não pude acreditar no que vi. Não era o fato milagroso de ter uma cédula na minha mão que me espantava. Devia ser dia de pagamento e resolvi verificar se o que eu percebia na nota de dez também estava na de dois, de cinco, de cinqüenta (a de cem eu não tinha, mas botei no Google e achei). E sim, em todas elas, em toda a representação da riqueza nacional, estava escrito – e segue escrito:

Deus seja louvado.

Opa, peraí, pensei. Mas logo re-pensei e voltei pro Google, pesquisei imagens das novas cédulas brasileiras, na certeza de que esse equívoco do passado, por certo, tinha sido corrigido, ou melhor, talvez até fosse o motivo do novo desenho do papel-moeda canarinho.

Como diria um amigo meu que mora no lugar-comum: Ledo engano.[3]

O erro não foi corrigido.

Lá está: na mão do rico e do pobre, pagando o flanelinha e a camisa de seda, Suposto Leitor, uma confissão de preconceito: Deus seja louvado. Calma, calma, calma, igreja, defensores das minorias – sim Deus, é uma minoria, é só um –, nada, nada mesmo contra Ele[4], até a favor. Minha questão não é a presença Dele no meu dinheiro, até porque quem nunca disse graças a deus ao se deparar com uns pilas, que jogue a primeira pedra. A questão é a seguinte: por que SÓ ele ali do lado da cifra? Hein, Suposto? Não falei que a bandeira era pertinente[5]?

(Pausa pra um momento cívico: já que o negócio é ser politicamente correto, vou pegar a constituição que é um negócio bem político, e, com tanta lei, só pode estar correta. Pois ela diz assim:

É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na formada lei, a colaboração de interesse público;)

É aquela conversa do estado laico, que respeita a liberdade religiosa no melhor politicamente correto style, tão propalada na hora de dizer que somos um país mágico que respeitas as diferenças, vive em harmonia, patati, patatá.

Mas daí o sujeito, digamos, islâmico, vai comprar o seu kibezinho com martelinho de araque, saca o dinheiro da carteira e vê lá Deus seja louvado? E por que não Alah também? E os budistas? Por mais desapegados que sejam, vez ou outra os caras tem que pegar um troco pra, sei lá, comprar um incenso. Por que é que não podem louvar Buda, por exemplo, quando estiverem segurando seu sagrado dinheirinho? Agora me diga, se os irmãos rastafári também não tem o direito de louvar Jah, na hora em que derem aquele cinco pila pra comprar outra peça de louvor[6].

É grave isso, não?

Um dos objetos mais cultuados da nossa sociedade laica&tal não respeita a liberdade religiosa? Ah, não pode ser assim[7]. Proponho que comecemos a discutir o preconceito monetário, ou melhor que busquemos já igualdade Real. É muito simples. Olha a minha idéia: ali no dinheiro, onde diz Deus seja louvado, coloque-se novo texto: Alah, Aton, Brahman, Buda, Deus, Jah, Jeová, Khrishna, Nam, Olorum, Ré, Tupã, Zeus seja louvado, se acaso você quiser louvar alguém. E, se você for ateu (é seu direito), louvado seja você que ganhou seu dinheiro[8].

Esse é o nosso atual rico dinheirinho

Que pode seguir rico, mas justo (clica neles pra aumentar)

Creio que assim estaríamos promovendo uma sociedade mais justa, igualitária, menos propensa a acirramentos e mais aberta ao diálogo, livre de tensões, angústias, dúvidas, questionamentos, piadas, humor e todo e qualquer tipo de emoção desnecessária para o avanço sereno da humanidade[9]. Estou fazendo minha parte.



[1] A propósito, não deveríamos pensar uma nova designação, menos discriminatória, já que o fato de que há alguém correto pressupõe outro errado? É justo, em um mundo que busca igualdade, onde ninguém fala mal de ninguém, sugerir nas entrelinhas que eu sou correto e o outro não? Que tal politicamente justo? Não, politicamente-respeitador-das-diferenças-e-adequado-a-vida-em-sociedade? Ou politicamente-simpático-a-todas-as-diferenças-do-mundo-e-respeitador-das-liberdades-porque-sei-que-a-minha-começa-onde-termina-a-tua-desculpa-se-ofendi-alguém? Tá, de volta pro texto.

[2] Claro que todas as outras bandeiras são importantíssimas, longe de mim diminuir qualquer causa, mas vamos lá:

[3] Respeito todos os lugarcomunzenses, suas idiossincrasias, até porque todo ser humano é diferente um do outro, apesar de termos que nos tratar como iguais, até porque isso é um jeito de respeitar as diferenças e, bom, de volta pro texto:

[4] É correto usar maiúscula pra Ele e não pra ele, o Suposto Leitor, por exemplo? Não merecem todos maiúsculas ou todos minúsculas, ih...

[5] Assim como todas as outras que qualquer um quiser levantar porque todos temos o direito de levantar bandeiras.

[6] Peço perdões às demais religiões que não foram tomadas como exemplo no texto, todas têm o mesmo direito e são tão merecedoras quanto as já citadas, mas é que a retórica exige exemplos rápidos, não seria possível que eu citasse TODAS as crenças nesse espaço. Deixo uma lista do Wikipédia para o Suposto Leitor conhecer as religiões todas aqui.

[7] Mas se alguém acha que pode, tem todo o direito de achar e podemos debater democrática e pacificamente o tema porque, bem, de volta ao texto.

[8] A ordem dos nomes na nota obedece à ordem alfabética, que não é uma ordem melhor do que qualquer outra, mas pelo menos não é valorativa, ou depreciativa, até pensei em definir a ordem por sorteio, mas percebi que sorteios são um profundo desrespeito com os azarados.

[9] Mas você tem o direito de achar isso uma besteira, Suposto, mas não de dizer que acha uma besteira, porque daí eu posso te processar, assim como a União dos Bestas se, por acaso ela se sentir ofendida ao ser comparada com esse texto. Mas, nesse caso, eu teria que processar eles também por se sentirem ofendidos ao serem comparados com o que eu penso, o que não deixaria de ser uma ofensa a mim. Então eles, melhor parar.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Por Causa do Ondjaki, de Canoas e da Aplauso

Olá, Suposto Leitor. Já vai se tornando um lugar comum eu dizer que andei sumido daqui. Mas fazer o que, se andei mesmo? Ressurjo com uma boa notícia: fui convidado - e aceitei - pra mediar, entrevistar, a participação do Ondjaki na 27ª Feira do Livro de Canoas.

Então estarei lá com Ondjaki, dia 6/6, uma segunda às 14h no Auditório Moacyr Scliar, na Praça da Bandeira.

Pra aproveitar esse momento, deixo aqui a resenha do livro Quantas madrugadas tem a noite, do Ondjaki, que fiz pra edição de novembro da Revista Aplauso. É isso.

**********

O narrador butequeiro de Ondjaki

Falar de Quantas madrugadas tem a noite parece exigir o mesmo talento de Ondjaki na condução do livro. Talento de contador de histórias emprestado ao narrador pra contar não contando, trilhando mais por desvios do que caminhos da história. Que história?Antes de ir pra ela preciso falar do narrador, um dos destaques da obra. Coloquialidade com poesia, um sujeito que diz que “as costuras dos céus tinham rebentado” pra falar de chuvas intermináveis. Mas este narrador transcende belas metáforas. Trata-se de um cara sentado à mesa de um bar em Luanda, conversando com um anônimo interlocutor, ou com a gente mesmo. É certo - a dedicatória do autor confirma - que esta voz malandra, cheia da fala local, é homenagem ao angolano Luandino Vieira. E se esquecermos sotaques, também dá uma vontade danada de lembrar do Blau Nunes de Simões Lopes Neto. Por aí já se percebe que é um narrador manhoso. Um contador de causos que propõe ao ouvinte que patrocine ngalas (garrafas de cerveja) em troca de uma história espetacular. E bebendo uma cerveja a cada página, traz fatos "puramente verdadeiros", embora pelo alto teor alcóolico do papo e pelo alto teor fantástico da história, possamos desconfiar dessa verdadeirice.

Nesse papo de butequim, vai e vem de histórias, nosso companheiro de bar fala de AdolfoDido. Mas não é da vida deste personagem fu**** desde o nome que ele quer falar. É da sua história pós-morte. Não, a trama não ocorre no além. É em Luanda mesmo. Mas trata dos problemas acerca da liberação do corpo do falecido AdolfoDido. A "autópsia inconclusiva", duas mulheres disputando o corpo e umas cositas más criam um embróglio jurídico-burocrático que põe o protagonista-defunto a circular insepulto pela cidade, de lá pra cá, em táxis, aparecendo-desaparecendo, virando objeto de uma grande discussão sem que ninguém saiba por que se discute tanto.

E aí entra a manha do narrador butequeiro: não vai aos finalmentes, manda a objetividade buscar mais uma cerveja. Pra contar os destinos de AdolfoDido, traz à tona outras histórias e personagens. Surgem o anão BurkinaFaçam, o albino Jaí, a KotaDasAbelhas (e seu poder sobre as abelhas de seu jardim), KiBebucha e DonaDivina (as disputantes do corpo), um misterioso e assustador cão que ocupa uma sala inteira na casa de um dos personagens e o imaginário de tantos outros.

Talvez fosse possível começar a história por qualquer uma dessas outras. "Aqui todas as pontas da rede são o próprio início, podes pegar de qualquer lado", diz o narrador. Cruzando todos esses pontos, as linhas narrativas, em uma aparente confusão (só aparente), se costura a tal rede. Ou melhor, véu: por baixo deste causo fantástico-policial, Ondjaki faz ver muito mais. Cada vez que o narrador pede uma cervejinha “pra lubrificar a locomotiva falatória” e se perde no passado de um personagem, faz mais que contar causos que se somam ao enredo. Nos leva a passear por Luanda. Com delicadeza e humor, sem discursos, fala da realidade do país, revela semelhanças e diferenças desta, assim como nós, ex-colônia portuguesa. Mostra o país feito de uma forte e frágil burocracia que obriga a indenizar ex-combatentes da independência, mas também constituído de crenças que fazem surgir cenas como a de Jaí fugindo da turba que crê que decepando o albino obterá a cura da AIDS.

Tudo em uma divertida costura do coloquial com o erudito. Na qual convivem citações de Guimarães Rosa e Ruy Duarte de Carvalho com falas de Odorico Paraguassu. Aliás, talvez costura seja bom resumo para esta novela. Linguagem, enredo, personagens se unem na rede que envolve e conduz para o desfecho desenhado pelo autor. E no desfecho (não vou contar) percebemos a intencionalidade de cada ponto, cada desvio de rumo. A soma de cada linha reforça o sentido da palavra trama para a literatura.

Quantas madrugadas tem a noite (Editora Leya)
Ondjaki
200 páginas
R$39,90

terça-feira, 22 de março de 2011

Por Causa de Contos&Crônicas&Alhos&Bugalhos

Acabo de ler que foram anunciadas as já famosas mudanças no maior prêmio da literatura nacional. Dizem que não, mas é pra responder ao Chico Buarque, Edney Silveste, Cia das Letras e Record.

Mas tudo bem. Se as mudanças vierem para bem.

Quer dizer, eu não estava dando a menor pelota pra essas alterações nas regras do Prêmio. Já tinha lido que se anunciava algo por aí, mas e daí, me perguntava.

Só que vi a manchete: Prêmio Jabuti anuncia aumento do número de categorias, de 21 para 29.

Faz um tempo que eu acho bem engraçado o seguinte: o maior prêmio da literatura nacional, nas suas vinte e uma categorias, reunia, em uma só, Contos&Crônicas.

Tá certo, nem todo mundo consegue distinguir um do outro.

Até o Charles Kiefer me explicar tim-tim por tim-tim as diferenças de uma crônica sobre alhos, de um conto com um personagem chamado bugalhos, eu também não sabia a diferença.

Mas há diferenças.

E muitas.

Tanto é que um se chama Conto. A outra, Crônica. São gêneros diferentes mesmo.

Que o Suposto Leitor, apesar de bem informado, não saiba diferenciar um da outra, vá lá. Mas o maior prêmio da literatura nacional?

Não, né?

Só que não diferenciava.

E aí competiam entre si livros não em condições de desigualdade, mas em condições de esquizofrenia. Era como botar um time de futebol a jogar contra um time de basquete. Ou como querer discutir se pudim é melhor do que feijão, se uma música dos Beatles é melhor do que um filme dos Irmãos Coen. Não dá. São dois universos diferentes se contrapondo, mais ou menos como as facas Ginsu encarando as meias Vivarinas.

Porém o maior prêmio da literatura nacional, há anos e anos, insistia nessa categoria Contos&Crônica, que tanto me lembra a Pizzaria e Churrascaria do Fritz. Vá lá, o Brasil é país da miscelânia, vamos miscelanar os textos curtos, vai ver era essa a explicação para o maior prêmio da literatura nacional fazer essa paçoca de letrinhas.

Mas, como eu dizia, manchetearam: o Prêmio Jabuti anunciou aumento de categorias. De 21 para 29. Rapaz, fui lá ver que, finalmente, o maior prêmio da literatura nacional tinha reparado n&sse detalhe dos Contos&Crônicas.

Apresento as novas 29 categorias:
Tradução; Arquitetura e Urbanismo; Fotografia; Comunicação; Artes; Teoria/Crítica Literária; Projeto Gráfico; Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil; Ilustração; Ciências Exatas; Tecnologia e Informática; Educação; Psicologia e Psicanálise; Reportagem; Didático e Paradidático; Economia, Administração e Negócios; Direito; Biografia; Capa; Poesia; Ciências Humanas; Ciências Naturais; Ciências da Saúde; Contos e Crônicas; Infantil; Juvenil; Romance; Turismo e Hotelaria; e Gastronomia.

Opa: não foi dessa vez.

Confesso que não sei quais categorias surgiram, mas vejo que o maior prêmio da literatura nacional reconhecerá o melhor livro de Direito, de Ciências Exatas e também das Naturais e da Saúde. O melhor livro de Gastronomia será prestigiado. Já o de Contos disputará espaço com o de Crônicas mais uma vez. E, como diria o filósofo: e vice-versa.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Por Causa do Olho na TV, Ouvido no Rádio

Deu, chega.
O futebol brasileiro tá cada vez mais cheio de absurdos. Os horários das partidas são só um deles. Por exemplo, mesmo que com reservas, grenal às 19h30, é só pra tevê mostrar que ela é mesmo a dona da bola, do campinho e do apito.

Vem cá, isso até desagrega a família brasileira. Atrasa a pizza, atrapalha o domingão, elimina o cafezão no fim do dia, afasta o namoradão do inevitável encontro com o sogrão no final da tarde de domingo. Danem-se os rituais.

Mas o problema pra mim, uma das vítimas do payperview, que assisto muitos jogos em bar, é que tem um sujeito que não abre mão de pelo menos um ritual brasileiro. É o Doutor Olho-naTV-Ouvido-no-Rádio. Que, em tempos de tevê digital, tornou-se o Doutor Ouvido no Rádio, Olho na tevê.

Não, Suposto Leitor, não deu pau no meu processador de textos.

Deu pau é na lógica do torcedor de futebol.

Esse sujeito que cresceu assistindo ao jogo na tevê e escutando a narração do rádio, tentando talvez emular a sensação de estar no estádio, esse queridão ou não se deu conta de que as coisas mudaram - o que é impossível -, ou tem uma carteirinha de chato, ou (medo) encontrou sua forma de exercer poder. Sua chance de ser o dono do campinho.

Quer entender?

Imagino que algumas pessoas aqui, Suposto, não vivam o mundo do futebol com a mesma intensidade que eu. Então explico: há uns 20 anos, não era assim pra passar o jogo do teu time na televisão. Final de campeonato e olhe lá. No tempo em que não existia tevê a cabo, era hábito acompanhar o futebol pelo rádio, imaginando os lances narrados. Daí, quando teu time era eleito pra uma transmissão, talvez pelo costume de ouvir o narrador X, ou pelo hábito da velocidade da narração do rádio, ou por preguiça de pensar e querer que o comentarista do rádio te diga o que achar do jogo, muita gente ligava a tevê, mas tirava o volume, e ficava ouvindo no rádio. Era o famoso Olho na TV, ouvido no Radinho. Muita gente cresceu assim, ou vendo o pai fazer isso.

Só que surgiu a teve a cabo, depois a digital e esses avanços tecnológicos, acredite Suposto, não são tão avançados assim. O sinal deles chega uns dois segundos depois do sinal da teve aberta. Sério, tu, com aquela anteninha externa comemora, o gol antes do assinante da tevê digital. Mas o pior é o que o sinal do rádio chega muito, muito, muito antes do da tv digital.

Mais ou menos assim: no televisor vai bater o escanteio; no rádio o juiz já anulou o gol.

E, apesar disso, dessa total falta de sincronia entre as velhas e novas tecnologias de acompanhamento futebolístico, tem gente que continua inda a bares que transmitem futebol em sinal digital, com o seu rico radinho de pilha. Não entendo o sentido disso, se querem brincar de prever o futuro, ou se tem o cérebro tão lento que só processam o que ouviram quando vem quatro, cinco segundos depois acontecendo na TV.

Não sei.

Mas tudo bem se fizessem isso em casa.

Ou em público, no boteco, mas em silêncio.

Mas não. Não mesmo.

E aí o porquê de só uma grave deficiência mental proteger esses sujeitos com seus radinhos grudados aos ouvidos do rótulo de presidentes da Sociedade Mundial dos Malas. Os o Doutores Olho na TV Ouvido no Rádio não se contentam em escutar que foi gol antes de ver no monitor que ele aconteceu. Eles têm comemorar, gritar, só falta dizerem Eu vi primeiro e bater no peito.

E daí? Qual a vantagem de comemorar o gol sozinho, campeão? Vai ser torcedor do Íbis, então.

Que é uma ejaculação precoce quando isso acontece. O time lá nas preliminares, Rochemback pra Adilson, Adilson pra Gabriel, Gabriel recua pra zaga, o time toca a bola, GOOOOL, vibra o apressadinho. Ah, vai ser gol, pensamos nós, que só assistimos ao jogo. E até comemoramos quando ele acontece. Como quem vê uma reprise.

Mas o pior não é isso.

Essas Mães Dinah de mesa de bar, a partir do primeiro gol da partida, conseguem tirar toda a magia do jogo de futebol. O Sobrenatural de Almeida sai de campo nessa hora e leva os mistérios e as surpresas embora do estádio.

Explico: depois que o amigão gritou gol pela primeira vez com a bola no meio-de-campo, eu já sei que ele vai saber antes de mim, bem antes de mim se sair outro gol. Ou um pênalti. E ele vai gritar EU VI PRIMEIRO só pra demarcar seu território. Então, mesmo sem querer, acontece o seguinte: por exemplo, contra-ataque do teu time, a bola nos pés do atacante que nunca errou, por algum motivo terroristas chechenos seqüestraram o goleiro adversário, não tem ninguém debaixo das traves, o atacante avança sozinho, em direção à aera a ao gol vazios, mas Suposto, daí a gente repara que o Doutor Olho no TV Ouvido no Rádio ainda não vibrou com o gol. Bueno a única emoção que nos resta é tentar adivinhar de que jeito o gol será perdido. Isso se o nosso vidente (ou ouvinte) não gritar: não acredito que um ninja entrou em campo e defendeu!

E pior é que se o sujeito ainda faz isso é porque isso um costume mais ancestral do que palitar os dentes. Me resta pensar em soluções. Por enquanto tô entre assistir o jogo com algodão nos ouvidos ou contratar uns pagodeiros pra batucarem mais alto que o adivinhão. Alguma sugestão, Suposto.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Por Causa de 1 Drama

Não sou um grande leitor de poesia. Ou melhor, nem um suposto leitor de poesia eu acho que sou. Mas às vezes me caem na mão algumas coisas que, acho, são capazes de tocar até os mais despoetizados.

Isso serve pra falar do Contém 1 drama, publicado pela Não Editora. É um livretinho que já te pega pelos olhos, coisa bonita, coisa delicada, coisa que dá vontade de ler.

Mas é mais do que isso.

Contém 1 drama, na verdade, contém bonitas fotos tiradas pela Carol Bensimon e, acima de tudo, 2 poemas do Diego Grando.

Os poemas do Diego Grando.

O Diego já tinha lançado pela Não o conjunto de poemas Desencantado carrossel. Um livro do qual eu gosto muito, por causa do lirismo, da singeleza, da cotidianeidade, da ironia que o Diego colocou pra girar dentro de um trabalho bem cuidado da forma. Gostei do carrossel do Diego.

Mas aí o sujeito foi passar um tempo em Paris, fazer doutorado e voltou há pouquinho. O passaporte dele são os 2 poemas 25 Rua do Templo e Palavra Paris.

Caramba.

O Diego cresceu.

E não só na extensão dos textos. Cresceu demais o poeta, que já era bom poeta.

Olha, diz que a literatura é feita de solidão. A solidão do escritor, na hora de compor os textos. A solidão do leitor, no momento da leitura. Mas poucas vezes eu tinha sentido tanta solidão em uma experiência literária como experimentei ao ler 25 Rua do Templo e Palavra Paris.

Se não chegam a ser canções, são, no mínimo, pequenos refrões do autoexílio que o Diego viveu nesses últimos anos junto com a Carol na França. Refrões que ficam repetindo na nossa cabeça a sensação de estar só, de ver o mundo de fora, distanciado das relações familiares, do que já foi rotina, dos rituais coletivos. Diego faz 2 poemas sujos pelo deslocamento, pelo não pertencimento a comemorações e alegrias, sujos com o humor triste de quem troca de ano como quem troca de calçada, como ele diz em 25 Rua do Templo.

Os dois poemas conseguem passar essa estranha sensação de quem foi atrás do sonho e percebeu, nas lembranças, nas memórias, que deixou realidades pra trás. São versos cheios de sorrisos tímidos e lágrimas contidas, porque o olhar de poeta do Diego faz leituras inusitadas do seu cotidiano parisiense, das dores e das alegrias de quem está vivendo a vida de estrangeiro, de quem para na rua deserta e sombria/companheira desta hora que não escolhi/rua deserta não muito distante/dos grandes bulevares abarrotados de alegria espumante/flashes ao vivo para o mundo todo/e meia dúzia de carteiras roubadas/rua deserta no coração da cidade/que um dia chamaram/talvez sem previsão de ironia/Cidade Luz.

E isso é só um tantinho dessa mistura de amargura e sorriso, de matemática com poesia (A palavra Paris tem cinco letras/e dois milhões duzentos e quinze mil habitantes, assim começa Palavra Paris), essa mistura de solidões e olhares que o Diego nos oferece neste volume de Contém 1 drama.

Há muito mais nesses versos.

Tem ritmo, tem imagens, tem inusitadas comparações e tem a beleza que fica, ao final da leitura de Palavra Paris, a beleza de quem viveu a solidão, viveu a distância, viveu o estrangeirismo e, mesmo assim, na hora de se despedir dos vinte e dois metros quadrados dessa palavra Paris que durou dois anos na sua vida, nessa hora, nos deixa perceber saudade e vontade de ficar. Um sentimento difuso que talvez seja de todos nós numa hora dessas. Mas que só um poetaço como o Diego consegue dizer.

Contém 1 drama contém grande poesia, contém pulsação, contém a minha recomendação para o Suposto Leitor.

E talvez não contenha uma lágrima ou duas de quem ler.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Por Causa Dessa Pressa Toda


Num mesmo final de semana, há quinze dias, rolaram duas estreias nos cinemas, aqui em Porto Alegre: O garoto de Liverpool e A rede social. Eu e a Jajá acabamos indo assistir aos dois, um no sábado, outro no domingo.
O que foi bom.
Não só pelos filmes.
Mas também pela comparação que as 24 horas entre um filme e outro permitiram fazer. Não, Suposto, não vou comparar roteiros, atuações, direções. Tô falando é do simbolismo de esses dois filmes estrearem no mesmo momento.
Olha só:
Tem uma semelhança muito clara entre O garoto de Liverpool e A rede social, que é o fato de serem baseados na história dos primeiros passos, dos momentos pré-fama, de dois nomes ilustres, certo? De um lado, John Lennon, do outro, o Mark Zuckerberg.
E essa semelhança é que faz saltar aos olhos um troço bem típico dos nossos tempos. Quer saber? Tá com pressa? Calma, é bem disso que eu tô falando. Dessa nossa pressa.
Segura a ansiedade e acompanha: sábado, quando assisti a juventude do Lennon, estava sentado diante de uma história que levou uns cinqüenta anos pra chegar ao cinema. E, vem cá, a história da juventude do John Lennon, a formação de um dos maiores nomes da música de todos os tempos, não é pouca coisa. E ainda se trata de um enredo conflituoso, cheio de traumas, lances fantásticos, conflitos fortes. E isso, minha gente, levou décadas pra virar filme.
Aí, no domingo, quando estou saindo da sala onde vi A rede social, parei pra pensar, Peraí, mas esse sujeito é HOJE – e não quando a história se passou – mais novo que eu. E, não, não, Suposto, não é crise dos 30, nem inveja de quem faz um bilhão de dólares aos 25 anos. É o seguinte: quem é Mark Zuckerberg? Sim, o criador do Facebook, eu sei. Mas será que é isso que ele vai ser daqui 50 anos, ou ele pode ser mais? Ou ser esquecido? Está pronta a história do cara, já acabou, já vamos biografá-lo?
É disso que tô falando, isso que ver os dois filmes no mesmo final de semana me botou a pensar. Na ansiedade geral dos nossos tempos, na instantaneidade de tudo, e na tal da efemeridade de qualquer coisa hoje em dia. O Zuckerberg passou a ser um cara da história ontem (se pensarmos em termos de História, talvez ontem seja muito tempo até), há coisa de cinco anos ou menos, com a explosão do Facebook. E assim como ele, cada vez mais, se vê biografias das celebridades do momento. E não estou dizendo que a história do cara não seja interessante, que não deva ser feita. Só estou pensando no significado de fazer ela agora. Demonstra nossa incapacidade geral de fazer as coisas durarem nos tempos de hoje. Tudo é moda, tudo é onda, tudo é trend, tudo é passageiro. Deixar de fazer o filme do Facebook agora, talvez significasse deixar de fazer esse filme para sempre. Porque daqui a seis meses um outro jovem pode estar fazendo o novo bilhão da internet, com uma ideia que a gente não imagina o que seja, e tirando o Zuckerberg dos holofotes e capas da Time. Porque o Zuckerberg de hoje é o criador do Orkut de um tempo atrás, do Napster, de um pouco antes, é o Bill Gates, o Steave Jobs. Eles parecem vir ao mundo na mesma velocidade dos chineses. E podem deixar de ser os caras com a mesma rapidez.
E isso acontece em tudo. É a nova banda do momento. O novo filme do momento. O novo aplicativo do momento. O novo do momento. E a gente corre pra ter, pra baixar, pra fazer o filme e a biografia logo, porque vivemos em um planeta que virou uma imensa Casas Bahia: só hoje. Amanhã já era.
Muita coisa surge. Nenhuma fica.
O Facebook passa.
O Zucekrberg, idem.
O Google, vai saber.
As modas, todas.
Graças a deus, John Lennon é de outro tempo.
Levou 50 anos pra mostrar a juventude no cinema.
Mas ficou na história.
Está nela.
E não vai sair.